O NACIONAL

29/09/2005

Projeto tenta ressuscitar a marca Gurgel

"Com incentivos fiscais do Mato Grosso do Sul e um terreno doado pela prefeitura de Três Lagoas, os veículos com a marca Gurgel podem voltar a ser montados. A marca Gurgel Motores, que pertencia ao empresário João do Amaral Gurgel, foi registrada por Paulo Emílio Lemos, um empresário de Presidente Prudente, SP, que sonha em construir um carro nacional. Antes de levar o projeto adiante, o empresário tem planos de nacionalizar em 80% a produção de um veículo utilitário que hoje ele importa da China. Ao custo de R$ 16 mil, o TA-01 parece uma pequena caminhonete, com cabine de dois lugares, caçamba basculante para 1,2 mil quilos e pode atingir 60 km/h. Um detalhe: trata-se de um triciclo.As peças são quase todas importadas, exceção feita a carroçaria e a cabine, hoje montadas em Presidente Prudente. Ele diz que pretende nacionalizá-lo (exceto o motor), construindo um galpão em Três Lagoas. Lemos afirma que está disposto a tirar R$ 3 milhões do próprio bolso até 2006. Em 2004, Lemos registrou a marca Gurgel, cuja validade havia caducado no INPI. O nome era um dos últimos patrimônios da empresa Gurgel Motores, que foi à falência na metade dos anos 90" (Valor, 20 de maio)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 10h24
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A épica trajetória do brasileiro que produziu o carro NACIONAL

                                              

Imagem: anúncio de venda de ações da Gurgel Motores

 Gurgel fala do início de sua carreira: "Fiz o curso de mecânica elétrica na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Tinha uma base muito forte em matemática. Nos anos da Poli, meu passeio preferido a caminho da escola era passar pela Rua Florêncio de Abreu, mexendo em peças. Um dia vi um motor americano Onan de 2 cilindros e tive a idéia de fazer um projeto de carro pequeno. Como estava no quinto ano, um professor encomendara como trabalho de formatura um guindaste de coluna. Resolvi surpreender com o meu projeto do carrinho. "Eu não pedi um carro, Gurgel. Se você não apresentar um projeto de guindaste, vai ser reprovado", disse o professor. "Vou fazer", respondi. "Mas o senhor nem quer ver o projeto?" A resposta dele não foi nada animadora: "Não entendo de automóvel, e estamos num curso de mecânica. Você deveria estar projetando guindastes, pontes rolantes. Lembre: automóvel não se fabrica, se compra. E tecnologia de carro é coisa de multinacional".

Para saber mais sobre a incrível história deste brasileiro, clique na imagem abaixo:

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 10h16
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27/09/2005

Presença dos EUA no Paraguai é profunda

 

Carolina Vila-Nova

Imagem: bandeira do Paraguai


A polêmica sobre a suposta instalação de uma base militar americana permanente no Paraguai, que dominou os jornais latino-americanos nos últimos meses, esconde uma outra realidade: a presença já forte e a influência marcante dos EUA nas Forças Armadas do país vizinho.


Analistas paraguaios independentes descrevem o país como um encrave militar histórico dos EUA no Cone Sul. Desde a década de 50, sob regimes autoritários ou sob governos democráticos, militares americanos têm trânsito relativamente livre pelo país por meio de acordos de cooperação.


Essas fontes afirmam que os EUA são também os responsáveis pela maior parte do treinamento e da formação das forças de segurança paraguaias, com cursos de especialização auspiciados pelos EUA por meio do Comando Sul e de programas de cooperação em defesa da Embaixada americana em Assunção.
"Hoje são os EUA quem definem quem é "bom" e quem é "mau" na política antiterrorista paraguaia", diz o especialista em temas militares Julio Benegas, do jornal paraguaio "ABC Color". "Há uma direta intervenção nos organismos antiterrorismo e antinarcóticos. São os EUA quem equipa, quem treina."
A implicação, sustenta, "é que o Paraguai abriu mão de definir sua própria política de defesa em troca de um suposto tratamento preferencial dos EUA".
"O presidente [Nicanor Duarte Frutos] diz que abrir uma maior relação com EUA pode redundar numa melhoria da economia e do intercâmbio comercial. Muitos somos céticos com relação a isso porque historicamente não temos tido uma relação comercial importante", disse o presidente do Senado, Carlos Filizzola, líder do partido de oposição País Solidário.


"A impressão é que os EUA se acercam porque lhes interessa estar nessa região e, como não podem fazê-lo com Brasil e Argentina, tentam ter uma maior presença através do Paraguai para fazer valer seus interesses em relação ao narcotráfico, ao terrorismo e à situação política no caso da Bolívia e da Venezuela", avaliou.


(...)



Base
Com tamanha influência, argumentam os analistas, os EUA não precisam estabelecer uma base permanente em território paraguaio. Fontes diplomáticas avaliam que o custo político dessa instalação seria muito alto e provocaria uma deterioração nas relações com os países vizinhos, dos quais depende boa parte da economia paraguaia.


"Seria mais interessante manter o Paraguai como um encrave sem ter a necessidade de trazer uma base, com toda a repercussão negativa que isso poderia ter na região", diz Benegas.


"Hoje, todos os escritórios de segurança norte-americanos estão funcionando [no Paraguai] e é melhor que funcionem livremente no país sem que se feche o escudo do Mercosul, para que possam mover-se facilmente e monitorar as atividades brasileira, argentina e boliviana", afirmou Castillo.


Não há indícios, por ora, de que a base exista. Segundo a Folha apurou, fotos aéreas feitas da pista de aterrissagem de Mariscal Estigarribia, apontado como lugar de instalação da base, e comparadas com fotografias de dois anos atrás não revelam nenhuma nova edificação nem movimentação de pessoas acima do normal -apenas um radar que não funciona.


(...)  
Recentemente, o Congresso do país autorizou a realização de 13 dessas ações, com duração prevista até dezembro de 2006. Estima-se que cerca de 400 militares americanos se revezem no país para participar dessas ações.
A reportagem da Folha pediu autorização para acompanhar os exercícios militares voltados ao combate do terrorismo e do narcotráfico que se realizavam nos últimos dias a 50 km de Assunção.


Foi autorizada pelo Comando das Forças Armadas do Paraguai; porém, até a última sexta-feira, quase duas semanas depois de formulado o pedido, a Embaixada dos EUA em Assunção não havia permitido o acesso do jornal ao local. Segundo uma fonte militar, trata-se de uma decisão "política".
"O que nos preocupa é que monitoramos 46 operações militares americanas desde 2002. Anteriormente, esses exercícios eram estabelecidos por seis meses. Depois aumentaram a quantidade de exercícios e o período, primeiro para um ano e agora para 18 meses. Isso demonstra a clara intenção de prolongar a presença americana no país", disse Castillo.

 

(Trecho de notícia publicada no jornal Folha de São Paulo em 25 de setembro de 2005. Grifos nossos.  Assinante da Folha de São Paulo ou do UOL: clique aqui e leia o texto integral)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 00h25
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26/09/2005

Resposta a um magistrado

Fábio Conder Comparato

Imagem: panfleto da campanha popular "O Petróleo é Nosso" surgida durante o segundo governo de Getúlio Vargas e que resultou na criação da Petrobrás, cujos desdobramentos políticos levaram Vargas ao suicídio. Depois de meio século de luta, chegamos, com o entreguismo de FHC e Lula ao "Petróleo é Deles" (Lei nº 9.478/97).

 

(...)

A exploração das duas grandes matrizes energéticas do nosso país -a energia hidráulica e o petróleo-, sobre as quais se assentou todo o processo de industrialização e a conseqüente independência econômica nacional, a partir de 1930, foi seriamente comprometida durante o governo Fernando Henrique Cardoso. A emenda constitucional nº 6, de 1995, veio permitir que o aproveitamento dos potenciais de energia hidráulica passasse a ser feito por estrangeiros, ou empresas de controle estrangeiro. A lei nº 9.478, de 1997, deu às empresas privadas, mesmo estrangeiras, contratadas para a lavra das jazidas de petróleo a propriedade do produto assim extraído. Contra toda expectativa, o governo Lula manteve, integralmente, essa política de abandono.

Tudo isso demonstra que não se pode confiar definitivamente a nenhum órgão estatal, nem mesmo ao Supremo Tribunal Federal, onde pontificam algumas figuras notáveis de magistrados, a defesa dos interesses superiores da nação brasileira.


Esta a razão pela qual a Ordem dos Advogados do Brasil lançou a Campanha Nacional em Defesa da República e da Democracia. É preciso, antes que seja tarde, reconhecer que o guardião legítimo da soberania nacional é o povo brasileiro. Todos os agentes políticos, eleitos ou não, togados ou sem toga, devem a ele se subordinar.


Fábio Konder Comparato, 68, advogado, doutor pela Universidade de Paris, é professor titular da Faculdade de Direito da USP e doutor honoris causa da Universidade de Coimbra. É autor, entre outras obras, de "A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos" (Saraiva).

 

(trecho de artigo publicado no jornal Folha de São Paulo em 27 de abril de 2005. Matéria enviada pelo colaborador Milton Lima, de Brasília)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 11h22
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25/09/2005

Fora todos

Paulo Nogueira Batista Jr

 

                     

Imagens: associação provocativa entre a logomarca da estadunidense Texaco e o logotipo do Partido dos Trabalhadores.           

 

 

(...)

Eis o que o brasileiro pergunta: onde estão afinal os líderes de que o país precisa?
Que presidentes temos tido! Fernando Collor! O que é isso, meu Deus? Fernando Henrique Cardoso! O que fez o Brasil para merecer oito anos de FHC? Oito anos! Nelson Rodrigues dizia que o brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Mas há limites, mesmo para um povo com crônicos problemas de auto-estima.
E agora Lula! Ultimamente, ele deu para se comparar a Juscelino Kubitschek. Um leitor escreveu, indignado: "Mais respeito! Juscelino era um estadista".
Realmente, Kubitschek, assim como Vargas, tinha projetos para o país, energia, vitalidade e, além disso, algo que falta a boa parte, talvez à maior parte do PT: sentido de nacionalidade.
Nacionalismo não é um vago e sentimental amor à pátria e a seus símbolos. É a noção clara da natureza do mundo em que vivemos e da posição que o Brasil nele ocupa e poderia ocupar. O planeta está dividido em nações que disputam espaço palmo a palmo. A cooperação internacional só é possível dentro de limites bastante estreitos. O que prevalece são as rivalidades e conflitos, não raro violentos, entre Estados nacionais.
País-continente, um dos maiores em termos populacionais e de extensão geográfica, dotado de recursos naturais abundantes, com uma economia razoavelmente desenvolvida e diversificada, uma sociedade vibrante e uma cultura original, a unidade nacional assegurada, sem graves conflitos raciais ou divisões internas, o Brasil tem potencial para exercer um papel construtivo e importante no plano internacional. Não precisa se subordinar a ninguém. E não deve se conformar em ficar para sempre na periferia do mundo.
Depois do colapso do bloco soviético e do "socialismo real", grande parte da esquerda ficou órfã de referenciais ideológicos e doutrinários. Nesse contexto, os petistas se apropriaram oportunisticamente de parte da retórica nacionalista ou nacional-desenvolvimentista. Mas o nacionalismo deles é, em muitos casos, de uma profundidade notável, dessas que uma formiguinha atravessa com água nas canelas, para usar mais uma expressão nelson rodrigueana.
Dos tucanos nem se fala. Com poucas exceções, não sabem mais _nem querem saber_ o que é nação. Muitos deles aceitam o papel deplorável de meros delegados da "ordem global". São a versão contemporânea da velha UDN, um partido essencialmente nocivo, que foi geralmente golpista, entreguista e alinhado aos Estados Unidos.
(...)
Creio que falo por muita gente quando escrevo o seguinte: não queremos em hipótese nenhuma ter que escolher, em 2006, entre um Lula (ou algum outro petista atucanado) e um tucano como FHC ou equivalente. O Brasil está farto desse tipo de político e de estelionatos eleitorais.
Se essa for a escolha que nos oferecerem em 2006, teremos que adotar o grito de guerra com o qual os argentinos varreram do mapa os menems, cavallos, de la rúas e tutti quanti:
Que se vayan todos!

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, professor da FGV-EAESP e autor do livro "O Brasil e a Economia Internacional: Recuperação e Defesa da Autonomia Nacional" (Campus/Elsevier, 2005).

Correio eletrônico: pnbjr@attglobal.net

 

(Trecho de artigo publicado no jornal Folha de São Paulo em 1º de setembro de 2005. Grifo nosso)
Escrito por Cláudio Gonzaga às 10h18
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24/09/2005

Ciência & Tecnologia

 

Sobre a importante função que as multinacionais cumprem no Brasil:

 

"A melhor maneira de manter um povo pobre e subdesenvolvido é fornecer-lhe tecnologia de ponta."

-- Robert McNamra, ex-secretário de defesa dos EUA e ex-presidente do Banco Mundial.


Escrito por Cláudio Gonzaga às 19h31
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23/09/2005

Heitor Villa-Lobos e o Povo Contra o Resto

 

Gilberto Felisberto Vasconcellos

 

Foto: Villa-Lobos quando jovem.

 

          1959. O ano que tirou a vida do maior compositor brasileiro ficará na história como o marco de uma utopia estética nacional que cedeu seu lugar à Bossa Nova yanquizada no binômio dólar-petróleo. Desde então ficamos proibidos de sentir saudades do Villa, cinco anos depois do suicídio do projeto político nacionalista de Getúlio Vargas em 1954.

 

Chega de saudade!

A música de Villa Lobos continuará viva na montagem dos filmes de Glauber Rocha a partir da década de 50. O Cinema Novo é fusão da tragédia política varguista com o grande delírio ufanosonoro villalobiano das florestas tropicais.

 

Hiléia. Uirapuru. Pica-pau.

 

Getúlio Vargas, a polis, Villa Lobos, a natureza dos trópicos. Esse arranjo político estético da revolução de 30 deixou com a pulga atrás da orelha os inimigos do nacionalismo trabalhista.

Até hoje surge, de quando em vez, um badameco intelectual, metido a sabichão, para estigmatizar Villa Lobos de autoritário, populista, fascistóide, por causa de sua vinculação ao Estado Novo getuliano. Babaquice movida pelo imperativo ideológico das pictures jotaka fazendo a defesa do muzak e da indústria cultural, que culmina na patota axémiuziqui de ACM, o Ritler do Pelourinho.


Folclore c’est moi

 

Disse-o muito bem Villa Lobos. Basta ouvi-lo em Prole do Bebê.

A cultura popular transfigurada na arte dos sons, de modo que a matéria-prima de sua música chama-se Luis da Câmara Cascudo, que foi seu melhor crítico ao apontar em Haeckel Tavares a correspondência criativa, os dois formando uma dualidade xifópaga tal qual Cosme e Damião.

Villa estilizando o folclore, Haeckel Tavares reproduzindo-o para salvar a memória auditiva.

 

Cieps versus Tropicália

 

Embora chorão, boêmio e curtidor da madrugada, Villa Lobos foi a favor da escola, da didática e do professor (Canto Orfeônico ensinando o amor à pátria e à natureza), enquanto a MPB da década de 50 em diante fará a apologia do dropout e do mundo-fora-da-escola, isto é, da mercadoria chamada “indústria cultural”.

À exceção dos grandes músicos brasileiros antenados no legado de Villa Lobos, como Camargo Guarnieri, Claudio Santoro, Radamés Gnatalli, Edino Krieger, a MPB tornar-se-à coveira do folclore e da natureza, aproximando-se de uma sonoridade boçal, planetária, cosmopolita, colonialista  e derrelicta, enfim, espécie de jaculatória do FMI, misturada ao popiroquirepimerda em que o ecocídio do território se confunde com o genocídio surdando o povo.

(continua abaixo)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h35
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(continuação)

 

Sinfonia do Sol Nascente

 

O melhor estudo da obra de Villa Lobos encontra-se no livro “Do Crepúsculo à Alvorada”, editora Tempo Brasileiro, da professora Piedade Carvalho. 

O modelo político civilizacional do Brasil está no Choro, na Ciranda, na Seresta e na Modinha.

As crianças brincando na calçada. O lampião a gás ao cair da tarde.

Cantiga  de roda carneirinho, carneirão...

Escreve Piedade: “o crepúsculo é tão rápido no tempo humano brasileiro que a sombra quase não acha espaço para se intrometer no cenário.”

Piedade Carvalho mostra Villa Lobos entre o piano, a mãe; a tia, o cravo. O pai era a clarineta proibida, guardada a sete chaves.

Dizem que Villa nunca sorriu enquanto seu pai viveu. O que reforça o primado uterino, ou a mulherofilia na música de Villa Lobos – em busca da índia gigante.

A pororoca rio-mar. A androginia da água com o vegetal é a vitória do amor nos trópicos: o amor e a sabedoria como estratégia para destruir a dominação imperialista. Vitória Régia. Um índio e uma índia dançando em plena nudez.

A Hiléia amazônica é o eixo da música villalobiana. A caneta do maestro desenhou em som e energia o Novo Mundo dos trópicos, contrastando com o horror e opróbio de assistirmos a entrega feagaceana da Amazônia aos gângsters internacionais.

Sobre o cenário musical da floresta, cito as palavras de Piedade Carvalho: “Na Amazônia, o artista invocou o ouro. Ele extraiu da Amazônia o ouro sonoro; foi o educador da Matéria Sonora. Sonhou e experimentou o substrato do sonho que lhe veio, através desse Rei e dessa Rainha. Nessa experiência, ele verificou que duas cabeças reinavam; duas cabeças sobre um só corpo: Amazônia. E desse reinado resultou o equilíbrio do Ar que circula no mundo e, por conseqüência, o equilíbrio do som que canta no mundo. A natureza amazônica é sobretudo andrógina; os Poemas Sinfônicos são androginia pura.”

É preciso sublinhar, hoje mais do que nunca, que a sonoridade villalobiana, além de Débussy e Stravinsky, está ancorada na natureza dos trópicos e no folclore, que é a solução popular na vida civilizada, justamente as duas tendências que foram reprimidas pela mercancia musical a partir da década de 50.

A cosmogonia pública de Villa Lobos foi substituída pela arquitetura privatizante da casa própria, ou seja, a moldura sonora do apê e da gazolina. O que rendeu sucesso foi a jotakamiuziqui, ou seja, a ideologia norte-americana sobre o Brasil.

Convém não esquecer que a música e a política são feitas com intervalos.

 

Gilberto Felisberto Vasconcellos é doutor em sociologia pela USP e professor na Universidade Federal de Juiz de Fora. Autor de, entre outros, “O Cabaré das Crianças”, “O Príncipe da Moeda”, “Poder dos Trópicos” (junto com Bautista Vidal) e “Brazil no Prego”.
Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h34
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Bachianas Brasileiras nº 4

 

Foto: Heitor Villa-Lobos e o usual charuto.

(acesse os elos -- "links" -- abaixo, clique, no fim da página, em "free", espere alguns segundos e baixe os quatro movimentos da Bachianas Brasileiras nº4)

 

" Bachianas Brasileiras nº 4 - para piano em versão para Orquestra pelo próprio compositor
Orchestre National de la Radiodiffusion Française
Regente: Villa-Lobos
Gravado em 14/05/1957
I) Prelúdio (Introdução)

 
 
Colaboração: o villalobiano Wagner Pinheiro na comunidade do Orkut "Villa Lobos".

Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h32
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18/09/2005

A Lei de Remessa de Lucros

 

Darcy Ribeiro

 

Duas questões fundamentais foram colocadas pela História diante do Brasil naquela conjuntura [1964]. Impor disciplina ao capital estrangeiro para que cruzeiros não produzissem dólares, o que nos estava levando à falência. A questão agrária, que, não resolvida, pressionava um imenso êxodo rural que só se explicava pelo monopólio da terra.

A primeira questão foi proposta ao Congresso na forma da Lei de Remessa de Lucros que, uma vez em vigor, impediria que o capital estrangeiro hostilizasse o capital nacional, tornando os nossos empréstimos cativos das empresas transnacionais. Essa lei aprovada na Câmara dos Deputados, e posteriormente no Senado, foi regulamentada por um decreto presidencial, cuja primeira versão foi redigida pelo ministro paulista Carvalho Pinto. Essa legislação revolucionária distinguia, no chamado capital estrangeiro, dois componentes diversos. O "capital estrangeiro propriamente dito", que entrara no país em qualquer tempo e de que qualquer forma — divisas, máquinas, processos produtivos, o que fosse —, ao qual se reconhecia o direito de retornar, se quisesse sair do país e de remeter lucros até 10% ao ano, uma taxa generosa no mercado internacional. O outro componente era o "capital nacional pertencente a estrangeiros", que crescera aqui com o apelo aos nossos bancos e pela exploração do mercado interno. Este, sendo nacional, tinha que correr o destino de todo capital nacional, não tendo direito de remeter lucros para o exterior nem de retornar. Desse modo, os lucros das empresas, em vez de criar novas empresas nos países de origem, se aplicariam aqui, podendo remeter divisas para pagar royatlies, ou o que fosse. Nas mesmas condições, porém, impostas aos empresários nacionais. (...)


A Lei de Remessa de Lucros, porém, contava com a oposição frontal do governo dos Estados Unidos da América. Este, poderosíssimo e muito mais disposto à intervenção do que pensava gente ingênua como eu, supondo que se estava tratando de interesse interno do nosso país. O governo de Lyndon Johnson pôs no Brasil, como adido militar, um coronel treinado na CIA, cuja função era articular o golpe militar. Seu trabalho foi coordenar o apoio da parte mais conspirativa das Forças Armadas com os governos estaduais mais opostos ao governo federal, que eram os de Lacerda, Adhemar e Magalhães Pinto. Simultaneamente, subvencionava com milhões de dólares toda a mídia e comprometia-se a dar apoio norte-americano a quem quer que se opusesse ao governo constitucional.

A importância extraordinária dessa lei foi bem compreendida pelos Estados Unidos, que se expuseram a toda uma guerra como a que tiveram na Coréia e no Vietnã, para derrogá-la. Foi compreendida também por dois homens muito competentes, Salvador Allende e Caio Prado Júnior. Eles disseram que sua aplicação representaria uma revolução na América Latina. Seria nossa liberação do domínio imperialista.

Caio o disse num ensaio de grande repercussão, advertindo as esquerdas para não continuarem com pequenas reivindicações, porque o fundamental estava feito para o sucesso da revolução brasileira. O senador Allende, visitando Jango logo depois do exílio, conversou muito conosco. Disse essencialmente que ele próprio não avaliava a enorme importância do governo de Jango e de sua política para a liberação da América Latina: "Sentimos sua queda como uma montanha que se afunda".

Extremamente aguda foi a percepção dos norte-americanos sobre a importância de derrogar, a qualquer custo, a Lei de Remessa de Lucros. O embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, chegou a propor a mim, na presença de Waldir Pires, numa entrevista que ele solicitara, que examinássemos a hipótese de até reduzir de 10% para 4% as remessas de lucro, o que eles aceitariam, desde que se deixasse de distinguir o "capital estrangeiro" do "capital nacional pertencente a estrangeiros".

"Nada disso, senhor embaixador. Trata-se de uma lei do Congresso Nacional, promulgada e regulamentada pelo governo", respondi.

(continua abaixo)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 03h25
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(continuação)

Uma crítica que fazem a Jango, e especificamente a mim, é que estávamos cutucando a onça com vara curta. Pretende-se também que devíamos ter separado as duas lutas, fazendo primeiro uma delas e, já fortalecidos, enfrentar a outra. Efetivamente, enfrentávamos toda a direita brasileira, unida e desesperada contra a reforma agrária, e também o governo norte-americano, cujos agentes coordenavam a subversão. Naquela conjuntura, era impossível separar as duas constrições que estrangulavam o Brasil. Elas tinham que ser enfrentadas simultaneamente. Isso tinha que ser feito um dia. Nós tentamos. Amanhã, outro governo patriótico tentará. Até que se alcancem os requisitos mínimos de existência digna e próspera dos brasileiros — a reforma agrária e o controle do capital estrangeiro. Não é impossível que isso ocorra depois da guerra prevista há trezentos anos por Hegel entre a América Saxônica e a América Ibérica, guerra que, segundo o filósofo, venceremos.

Os Estados Unidos da América se especializaram na exploração na sugilação da América Latina. Operações em que alcançam alto êxito, graças às bombas de sucção que são suas empresas e seus sistemas de dominação, através do suborno e da subversão golpista. O chamado golpismo latino-americano, tido como um pendor caudilhesco nosso, se houve, acabou. O golpismo é, já há muito tempo, a principal forma de ação dos norte-americanos quando se preocupam com qualquer altivez e autonomia latino-americana.
Com efeito, a embaixada norte-americana, comandada pela
CIA, contou uma agência de suborno, o IBAD — Instituto Brasileiro de Ação democrática —, que com gastos da ordem de 20 milhões de dólares comprou, mediante o financiamento de suas campanhas eleitorais, quase seiscentos deputados estaduais e duzentos parlamentares federais.

Por sua vez, o patronato brasileiro, acionado e encorajado pela CIA, bem como o estamento gerencial das empresas estrangeiras — que é de fato a classe dominante do Brasil —, criou sua própria agência, o IPE — Instituto de Pesquisas e Estudos, que, atrás desse nome paracientífico, apanhava dinheiro para subornar qualquer autoridade corruptível e, sobretudo, a imprensa.

O suborno bilionário e sua origem estrangeira foi provado pela Comissão Parlamentar de Inquérito criada por José Aparecido de Oliveira, deputado da UDN — a quem a direita jamais perdoou. Seus principais companheiros nessa batalha admirável, que chegou a levantar a lista nominal dos deputados estaduais e federais, bem como de senadores e governadores subornados, foram Rubens Paiva, Elói Dutra e Benedito Cerqueira.
Esses dois órgãos de subversão criados pela CIA, que contribuiu para seu financiamento com suas próprias verbas de milhões, operaram também para lubrificar o bolso de militares e civis na preparação da quartelada. Sua ação mais danosa, entretanto, foi a meramente conspirativa, fazendo ponte entre os três governadores golpistas, Lacerda, Magalhães e Adhemar, e os comandos das Forças Armadas, dispostos a ouvir seus agentes boca-a-ouvido ou por interposta pessoa. O encarregado dessas diligências foi o coronel Vernon Walters, do quadro dirigente da CIA, destacado para o Brasil com esse objetivo. Como atuara na Itália durante a guerra, onde tivera contatos com oficiais brasileiros e se fizera amigo deles, inclusive de Castelo Branco, foi fácil chamá-los à subversão.

O êxito da operação no Brasil animou a CIA a realizar outras façanhas cabíveis no curso da Guerra Fria. Implantou ditaduras militares no Uruguai, na Argentina e no Chile, matando a democracia em nome da liberdade. Lá também, acusando os governantes democráticos de ser propensos ao comunismo, alçavam militares em levantes em defesa da Constituição e os instalavam em governos de caráter cruamente despótico e retrógrado, que, em conseqüência, tornaram-se cada mais repressivos. Nisso também foram assessorados pela CIA, que selecionava os oficiais nativos com mais talento para torturar e assassinar e os treinava meticulosamente.

 

(Trecho do livro “Confissões”, de Darcy Ribeiro, págs. 318-22 – grifos nossos)


Darcy Ribeiro, antropólogo, autor do clássico "O Povo Brasileiro" foi Chefe da Casa Civil no governo de João Goulart. Foi o fundador e primeiro reitor da Universidade de Brasília (www.unb.br).

(clique aqui para saber mais sobre Darcy)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 03h23
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16/09/2005

                        

A oligarquia dos pardais

 

 

                                                 

 

"Lembro de uma grande figura brasileira que dizia que o Brasil não pode ter um Balzac nem um Anatole France, não por falta de romancistas, mas por falta de material romanceável. Quer dizer, o material romanceável dele tem que estar na beira do Sena, ou, na melhor das hipóteses, no Roissy: é a absoluta incompetência para observar o terrível drama de seu próprio povo, do seu vizinho, do que se passa na rua, um ní­vel de alienação que seria inconcebível, se não fosse real.

"As oligarquias latino-americanas têm bastante semelhança entre si e seu traço fundamental é a alienação. Vive­mos num país que talvez seja o mais rico do mundo em pás­saros, os nossos museus estão cheios de arte plumária indí­gena. No entanto, foi preciso que o prefeito Passos trouxesse os pardais para o Rio de Janeiro, que o prefeito António Prado os introduzisse em São Paulo, e que Sarmiento os levasse para Huenos Aires, los gorriones. Quer dizer, para ser possível en­xergar sua cidade, ela tem que ter pardais - esses ratos voado-u-s vindos de Paris -, para que se assemelhe com aquilo que se tem na cabeça como valor supremo.

"Esta é a 'oligarquia dos pardais', que não têm identificação cultural e que, praticando atos aparentemente inocentes,  conduzem sempre o país para o processo de dominação externa, dentro de uma linha de raciocínio padronizado, que encontramos no discurso das figuras mais ilustres."

 

(Texto de Severo Go­mes, retirado de sua conferência "Os Trópicos e o Primeiro Mundo", do livro Desafio Amazônico - O Futuro da Civilização dos Trópicos . Para maiores informações, visite o sítio www.institutodosol.org.br)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h42
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O Itamaraty de Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães

 por Gilberto Felisberto Vasconcellos

 

Itamaratizão... ironizava Darcy Ribeiro. No período Collor foi um puteiro pop; em seguida lobby de privatização internacional do território para FHC descolar prendas honoris causa no exterior. Agora o presidente Lula acertou na escolha de um patriota, nacionalista, culto, idôneo, intelectual conhecedor da história do Brasil não só do ponto de vista econômico, mas estético.

          A ALCA não passará! Los gringos no passaron com a ALCA!

          Tiremos o chapéu para o chanceler Celso Amorim. Nascido em Santos, a cidade do patriarca José Bonifácio de Andrade e Silva que viu cinema, estudou e meditou sobre o bom, recusando o “bad movie” pornochique. O jovem Amorim fez a cabeça lendo o filósofo húngaro marxista, Georg Lukàcs, sendo mais tarde influenciado por Glauber Rocha, de quem foi amigo e sobre quem escreveu coisas profundas, tal qual João Carlos Texeira Gomes, o biógrafo do cineasta na versão barroca revolucionária que o diferencia de outros cineastas. Para Celso Amorim, o cineasta queria “abarcar a totalidade do universo”. Essa é a bela ambição estética de cada filme seu a refletir o que é o Brasil dentro do cosmos. É isso o que tece o diálogo glauberamorim na "nova new geopolítica” materializada em A Idade da Terra (1980), o filme da fotossíntese vegetal, assim como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) indigitava onde havia petróleo na Bahia. Cinematograficamente ele experimentou todas as etapas energéticas. Barravento. Montagem nuclear. A estesia cinematográfica da biomassa energética. Em A Idade da Terra Celso Amorim teve participação criativa na montagem. Eu lembro seu artigo de 1980 destinado aos intelectuais. Glauber insistiu para que Lula visse A Idade da Terra, a obra prima do século XX sobre o imperialismo, “a tirania decorrente da dominação estrangeira”, segundo Amorim. O nacionalismo do cinema novo repercutirá no Itamaraty de 2003 com Samuel Pinheiro, para quem a periferia é o centro do mundo, insurgindo contra a peste resignada da sociologia cepalina até o Cebrap, a justificação ideológica do inexorável domínio anglosaxônico, no qual o eminente Celso Furtado foi tragado por Wall Street: a história começou na Grécia e acabou nos Estados Unidos!

          Samuel Pinheiro consignou o verdadeiro desígnio da política externa:  “A América do sul é a circunstância inevitável, histórica e geográfica do Estado e da sociedade brasileira”. Como dizia Oswald de Andrade, é a América do sol situada no trópico úmido. A política externa com uma matriz energética e tecnológica adequada à natureza física do país, a qual ainda não foi dimensionada pelo governo Lula, pois este recusa o ideário da escola da biomassa energética preferindo repercutir a melancólica alienação da Cepal, ou seja, a concepção equivocada da tecnologia como variável externa, pacotes tecnológicos agregados fora do país, o que hoje corresponde ao truque de substituir o desenvolvimento social e econômico pelo combate assistencial à pobreza e à fome com teologias caridosas da má consciência.

Samuel Pinheiro mostrou o ardil sociológico feagaceano - “país injusto” e não “país subdesenvolvido” - que colocou em nosso peito a culpa exclusiva pela miséria. Os brasileiros somos culpados. A culpa mora é dentro de casa. Triste é a substituição do príncipe da moeda pelo príncipe da esmola. A esmola como o antídoto do desenvolvimento. A substituição da miséria da filosofia pela filosofia da miséria. O sacolão da caridade foi criticado pela “estética da fome” glauberiana desde 1965.          O grande lance é erradicar a pobreza, e não governar para pobres.

 


Gilberto Felisberto Vasconcellos é doutor em sociologia pela USP e professor na Universidade Federal de Juiz de Fora.



Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h05
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12/09/2005

 

A Universidade, a Empresa e a Pesquisa que o país precisa

 

Carlos H. de Brito Cruz

 

 

"A ciência está destinada a desempenhar um papel cada vez mais preponderante na produção industrial. E as nações que deixarem de entender essa lição hão inevitavelmente de ser relegadas à posição de nações escravas: cortadoras de lenha e carregadoras de água para os povos mais esclarecidos" (Lord Rutherford, citado no documento “Ciência e Pesquisa – Contribuição de Homens do Laboratório e da Cátedra à Magna Assembléia Constituinte de Sâo Paulo”, que propôs a criação da Fapesp em 1947)

 

 

O conhecimento, que sempre foi um dos principais insumos para a geração de riqueza e bem estar social, passou a ser reconhecido como tal a partir da revolução da informação trazida pela Internet. Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve dos Estados Unidos, tem destacado que “os avanços tecnológicos dos últimos anos, que permitiram às indústrias norte-americanas operar com maior produtividade, contribuindo para a maior prosperidade já experimentada pelo mundo". David Landes, o autor de “A Riqueza e a Pobreza das Nações”, destaca o valor do conhecimento mais contundentemente em entrevista à Veja, referindo-se à necessidade de um país ter criadores de conhecimento para se desenvolver: “Se você não tiver cérebros, está acabado”. (...)

 

 

"O segundo exemplo é o avião a jato EMB145, desenvolvido pela Embraer, em Sâo José dos Campos. Trata-se de um avião a jato para 50 passageiros, destinado ao promissor mercado de vôos regionais23. Lançado no início de 1997 tornou-se imediatamente um sucesso de vendas – dezenas de unidades vendidas para empresas em todo o mundo, mais centenas em opções para compra futura. Engenheiros bem formados pelo ITA, trabalhando numa empresa que valoriza P&D, gerando riqueza para o país e para a empresa." (Carlos H. Brito Cruz)

 

"O terceiro exemplo é o da tecnologia de fabricação de fibras ópticas. Este envolve a participação da universidade, pois o projeto nasceu na Unicamp, através de um convênio estabelecido em 1974 com a Telebrás. Este projeto foi descrito por Krieger e Galembeck como "um dos poucos e talvez o melhor exemplo de programa de P&D bem sucedido, no País"24. Iniciado na universidade, passou para um centro de pesquisa de empresa estatal e depois a tecnologia foi licenciada para empresas privadas que passaram a cuidar dos futuros desenvolvimentos." (Carlos H. Brito Cruz)

 

Carlos H. de Brito Cruz foi reitor da Unicamp e presidente da Fapesp, instituição em que hoje exerce o cargo de diretor científico.

 

Para ler na íntegra o excelente artigo de Carlos Brito Cruz, clique aqui. Visite a página do cientista: http://www.ifi.unicamp.br/~brito/


Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h58
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Servilidade e dignidade na diplomacia brasileira

 

Celso Lafer, ministro das Relações Exteriores de FHC

“Em 31 de janeiro de 2002, Celso Lafer, ministro de Estado das Relações Exteriores do Brasil, sujeitou-se a tirar os sapatos e ficar descalço, a fim de ser revistado por seguranças do aeroporto, ao desembarcar em Miami. Esse desaire, ele novamente aceitou, antes de tomar o avião para Washington, e mais uma vez desrespeitou a si próprio e desonrou não apenas o cargo de ministro de Estado, como também o governo ao qual servia. E, ao desembarcar em Nova York, voltou a tirar os sapatos, submetendo-se, pela terceira vez, ao mesmo tratamento, humilhante, dispensado a um dignatário estrangeiro, exatamente ele, o herói que tomara a iniciativa de convocar a Reunião de Consulta da ONU, invocando o TIAR, para demonstrar solidariedade com os Estados Unidos por causa dos atentados de 11 de setembro”.

 

Celso Amorim, atual Ministro das Relações Exteriores

 

“há tempos (Celso Amorim) avisou a embaixadora dos EUA que não há força no mundo capaz de fazê-lo tirar os sapatos durante a revista de segurança dos aeroportos americanos. ‘Vou preso, mas não tiro o sapato’”. (Jornal O Globo)

 

Para saber mais:

Revista Espaço Acadêmico nº52, setembro2005

Artigo de Altamiro Borges

http://www.espacoacademico.com.br/052/52res_borges.htm
Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h26
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10/09/2005

O Governo Lula é nacionalista?

Cláudio Ângelo Corrêa Gonzaga

Imagens: associação provocativa entre a logomarca da multinacional estadunidense Texaco e o logotipo do Partido dos Trabalhadores

 

O governo Lula tem sido considerado por alguns -- talvez apressados -- como um governo de tendência patriota ou mesmo nacionalista, dada as assíduas injeções midiáticas de auto-estima no brasileiro. "Eu sou brasileiro e não desisto nunca" (de pagar juros abusivos e viver com pouca qualidade de vida em um país dependente e periférico, poderia se acrescentar). Discordamos, entretanto, desta posição otimista, com a seguinte ressalva: a política externa independente dos EUA e liderante no terceiro mundo tão bem articulada por Celso Amorim e Samuel Pinheiro (a quem cabe o mérito do único trunfo do governo Lula).

 

Política externa, todavia, não pode ser substituta da falta de projeto nacional interno. De fato, a política interna contradiz a política externa: o favorecimento do sistema financeiro internacional em detrimento à produção nacional, a drenagem absurda de recursos ao pagamento dos serviços da dívida jamais renegociada, a ausência de uma política educacional e científica arrojada, o perdão das privatizações que antes foram consideradas abusivas e mesmo ilegais pelo PT (basta ver o conteúdo de O Brasil Privatizado, publicado pela  Fundação Perseu Abramo), a centralização da economia na exportação de produtos agrícolas (soja), ao invés de bens de alto valor agregado etc... Enfim, uma política mediocremente brasileira, na linha colonizada de Campos Sales a FHC, passando por Eurico Dutra e Collor. Estas constatações nos levam a rejeitar a idéia de ser o Governo Lula um governo patriótico/nacionalista (para mais ricos detalhes sobre a política anti-nacional do governo Lula clique aqui e leia o artigo de Adriano Benayon "Com ou sem acordo com o FMI:colônia do sistema financeiro mundial"). Mas, muito antes de os fatos evidenciarem isto, a mente perspicaz de Darcy Ribeiro já pontificava que “o PT é a UDN de macacão”, completando o raciocínio com sua natural provocação:

 

Darcy Ribeiro, fundador e primeiro reitor da UnB (Universidade de Brasília)

 

 

"O PT sofre de uma imbecilidade congênita. Ele não é brasileiro, ele não sabe nada de 1930, eles pensam que foi em Osasco que foi fundado o sindicato no Brasil. Então, o fato de não serem herdeiros da história brasileira, faz com que sejam exóticos. Eles ficam cobrando que nós tivéssemos no passado um sindicalismo americano. Ao contrário, toda a legislação brasileira é baseada no positivismo. O PT tem na cabeça o trade union inglês e o contrato de trabalho coletivo americano. O que é o partido do Lula? Tem uma ideologia, tem um projeto para o Brasil? Não. O PT é igual ao operariado americano, o Lula fez curso lá e aprendeu. Tudo o que o sindicalismo quer é mais do que já tem, não quer mudar nada, está contente. Então a aristocracia do operariado do PT só quer mais, mais, mais, mais do que já tem. É claro que não consertaria nunca o Brasil" (Darcy Ribeiro em entrevista à revista Carta, 1991 -- destaque nosso)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 03h13
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Investidas patrióticas

 

 

               

Getúlio Vargas                                                  Lula   

 

 

Ainda a respeito da relação entre o Governo Lula e o nacionalismo, o historiador Marco Antonio Villa (Universidade Federal de São Carlos) disparou:

 

"Esse nacionalismo é postiço, pois não combina com a política econômica do governo, ao contrário de um governo como o de Vargas. Verdadeiro nacionalismo seria, por exemplo, renegociar a dívida externa, lutar por descontos dessa dívida, que é impagável, ou alongar o pagamento. Também seria verdadeiro nacionalismo tentar renegociar a dívida interna, que sufoca, tanto quanto a externa, o desenvolvimento do país" (...)

 

"O governo Lula tem um pecado original, um mal de origem, que é desprezar a herança getulista. O PT nasceu antigetulista e permanece antigetulista, por isso tem dificuldade em criar seu próprio nacionalismo, pois no Brasil nacionalismo é sinônimo de getulismo".

 

Luiz Werneck Vianna, do Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) ressalta:  "a tradição do PT não é de ser especialista na questão nacional, mas sim na questão social".

 

(Fonte: Caderno Mais! da Folha de São Paulo, 19 de setembro de 2004 -- destaque nosso)

 

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 03h02
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Com ou sem acordo com o FMI:

colônia do sistema financeiro mundial

 

   Adriano Benayon

 

Imagem: caricatura ilustrando a partilha da China por potências estrangeiras. A China, dominada pelos estrangeiros até o início do século XX, hoje, devido a sucessivos governos nacionalistas (mais nacionalistas que  comunistas), é considerada uma potência mundial. Com o Brasil fenômeno inverso se deu. Caminhamos a passos largos para um estado de completa dependência e exploração semelhante ao colonialismo e neocolonialismo do passado. Apesar das bravatas patrioteiras de Lula, este tem sido o real efeito de sua política neoliberal colonizada.

 

 

 

Trechos do artigo de Adriano Benayon publicado em A Nova Democracia, nº 25, julho 2005. Retirado do sítio www.institutodosol.org.br.

 

(clique aqui para ler o artigo completo)

 

(...)

 

3) A política econômica é, cada vez mais, servil à oligarquia financeira mundial, superando na vil submissão as mais desqualificadas republiquetas do Planeta. Não fosse assim, não seria o País privado de investimentos produtivos e da possibilidade de desenvolver tecnologias. De fato, a produção e os mercados são controlados pelas transnacionais, e a política econômica é determinada por bancos estrangeiros e por entidades teleguiadas, como a FEBRABAN.

(....)

Em 2002, ainda sob o príncipe dos entreguistas, a conta oficial dos juros foi R$ 114 bilhões(...) Em 2003, já sob a administração petucana, a conta oficial chegou a R$ 145,6 bilhões. Em 2004, essas despesas, camufladas na contabilidade oficial, caíram para R$ 128,3 bilhões. Mas o BACEN já cuidou de assegurar que, em 2005, os juros cheguem, no mínimo, a R$ 200 bilhões.

Uma exigência tradicional do FMI é o superávit primário, um conceito fraudulento. Em 2002 o FMI queria 3,75% do PIB, e o resultado foi 3,9%. Para 2003 e 2004, já com o acordo “negociado” sob o atual governo, a meta, aumentada para 4,25%, foi ultrapassada: 4,4% e 4,6% do PIB. Já os investimentos do governo federal, em 2003, caíram de ridículos 0,8% do PIB, para ainda mais vergonhosos 0,5% do PIB em 2003/2004.

(...)

(continua abaixo)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h04
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09/09/2005

                      (continuação)

        

3. O governo opera os instrumentos da colonização

O estatuto colonial não está somente no torniquete orçamentário, que comprime toda e qualquer despesa produtiva ou favorável à economia do País, nem só nos juros absurdos, nem só no furor tributário. Continuam em franca operação todos os mecanismos instituídos pelos interesses contrários aos do País de 1995 a 2002. Continuam em vigor:

(...)

5) a alienação do grosso das ações da Petrobrás, que agora paga mais de 2/3 de seus dividendos a acionistas privados, na maioria estrangeiros;

6) as licitações das jazidas de petróleo em áreas prospectadas pela Petrobrás, as quais são adquiridas a preços ridículos nos leilões da Agência Nacional do Petróleo, ficando as transnacionais com a propriedade do petróleo e sem a obrigação de pagar qualquer royality, taxa ou imposto pela extração; pior: o governo obteve do STF a legitimação dos despautérios da inconstitucional Lei nº 9.478 de 1997, pondo o Brasil em situação inferior à de países desprovidos de tecnologia de exploração de petróleo, os quais, cobram royalties significativos em compensação pelo esgotamento de seus recursos naturais;

7) a criação de parques nacionais e de reservas indígenas em extensas áreas da Amazônia e de outras regiões, nos quais brasileiros são impedidos não só utilizar terras, mas até mesmo de transitar por elas;

8) a presença dominante das ONGs, financiadas do exterior, no Ministério do Meio Ambiente, na SEMA, na FUNAI e outras entidades;

9) a presença imperante nos ministérios da área econômica e no BACEN, de teleguiados do Banco Mundial, do FMI e de outros organismos ditos internacionais.

(...)

4) Fez aprovar a Lei dos transgênicos, danosa à agricultura, à economia e à saúde dos brasileiros, mas proveitosa para a Monsanto e para outras transnacionais que estendem seu controle totalitário sobre os produtores e os consumidores.

5) Acaba de propor ao Congresso projeto de lei, que permite à União alienar terras, em concessões por 60 anos, nas áreas de florestas, o qual, se aprovado, concluirá a entrega da Amazônia e de outras regiões à sanha extrativa de transnacionais estrangeiras.

6) Determinou a demarcação, como terra indígena, de enorme região contínua, no Estado de Roraima (Raposa do Sol), constituindo assim mais um enclave escassamente povoado, para ser controlado por ONGs e entidades estrangeiras, e inviabilizando a economia daquele Estado, onde restam muito poucas áreas em que não se veda a ocupação normal pelos brasileiros.

 

5. Profissões de fé infracoloniais

 

O presidente da República, em falação recente, deitada na Volkswagen do Brasil (ele sempre gostou de empresas multinacionais), não contente em defender as “reformas” já feitas e as que estão em andamento, prometeu derrubar a legislação trabalhista e sindical, qualificada por ele como cópia fiel da Carta del Lavoro, do regime de Mussolini. Ou seja, se for para prejudicar os assalariados, vale condenar o fascismo em discurso. Na prática, entretanto, imitar o fascismo, ou até superá-lo, faz-se como? Favorecendo a concentração e executando a política dos banqueiros. De quebra, eliminando os últimos resquícios das políticas de bem-estar social. (...)

 

 

Adriano Benayon é doutor em economia pela Universidade de Hamburgo,  Alemanha. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento

 

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 20h08
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07/09/2005

Darcy, Estadista 

 

Foto: o antropólogo, educador e político nacionalista Darcy Ribeiro, fundador e primeiro reitor da UnB (Universidade de Brasília), criador dos CIEPs e da UENF. Foi Chefe da Casa Civil de João Goulart, e, junto com o ex-presidente, exilado durante o regime militar.

 

"Tenho um sentido agudo do Brasil como desafio posto a todos, mas principalmente a mim. Como promessa de uma civilização ecumênica e feliz. Vejo-me como o servidor público, o estadista que nasceu para forçar o Brasil a dar certo."  (Darcy Ribeiro em sua autobiografia Confissões, Ed. Cia das Letras)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 20h02
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O NACIONAL, blog do nacionalismo esclarecido e profundamente democrático, poderá (frise-se, apenas poderá) ficar sem atualizações até a próxima segunda-feira. Pedimos a compreensão sua, caríssimo leitor, e reiteramos aqui nosso compromisso em vasculhar e publicar o que existe de melhor do pensamento nacional.

Inserimos aqui o excelente prefácio ao livro "Brazil no Prego", de Gilberto F. Vasconcellos, escrito por nosso nunca dignamente aclamado amigo Yago Eusébio, jovem pensador social quiçá de uma jovem e emergente geração de intelectuais, políticos, militares e produtores nacionalistas, capazes de conciliar progresso material à emancipação individual. "O nacionalismo é a raiz do futuro" (Glauber Rocha)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 19h53
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Prefácio de "Brazil no prego"

Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho

 

Foto: “Brazil no prego”
Gilberto Felisberto Vasconcellos, Editora Revan.
   212 páginas, R$28,00

 

              Gilberto Felisberto Vasconcellos trocou a USP pelo escritor modernista Oswald de Andrade. Dispensou a sociologia da dependência e caminhou por uma espécie de sociologia pau-brasil.  Não é por acaso que sua obra é lida, mas pouco comentada.

            No livro Ensaios Serranos, 2001, o escritor Júlio Ambrozio escreveu: “Gilberto Felisberto Vasconcellos, doutor pela USP e com domicílio petropolitano-mineiro, vai se configurando neste final de década como um dos cientistas sociais de viceral importância para compreensão do país. Articulando política e cultura, seus livros iluminam a sombra trágica da queda de Jango e do Trabalhismo para o Brasil.”

            O ensaio de Gilberto Felisberto Vasconcellos é sobre a atualidade cultural brasileira: Brazil no Prego. Nas páginas que  seguem podemos perceber a angústia do autor diante da impostura intelectual dos anos de 1980 desaguando no desastre político da década de 1990, cujo corolário foi o seqüestro do território brasileiro.

            Essa viagem caminha na síntese Hegel-Oswald de Andrade-Noel Rosa. O rei da vela leiloeiro. Na triste década perdida de 1990, Abelardo –  o personagem oswaldiano – reina absoluto, promovendo a transformação completa do verbo em verba. Estamos todos no prego à espera de uma multinacional que nos ferre o corpo e a alma.

                                                                          (continua abaixo)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 19h48
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                       (continuação)

             O foco central de sua crítica é o legado intelectual de José Guilherme Merquior, talvez o mais importante crítico da cultura no Brasil na segunda metade do século XX. A tese do livro: o pensamento merquiorano foi um dos principais responsáveis pela convergência dos projetos políticos liberais e socialdemocratas a partir de 1989. A artilharia do sociólogo volta-se contra o conceito de modernidade propagado por Merquior.

            Não estar conectado à modernidade é puro irracionalismo, é ir contra a maré dos desdobramentos históricos. O neoliberalismo é a crista da onda. A modernidade transformada na própria história. O rigoroso padrão metodológico científico contra o esteta, contra o boêmio e contra o revolucionário. Está em voga o intelectual desenraizado. A preocupação centrada no que ocorre alhures em detrimento do nosso quintal. Daí as reformas macroeconômicas serem apresentadas como programas de utilidade pública. Higiene social. Desideologização da economia. Ajuste fiscal. Privatizações. Enxugamento do Estado.

            Eis a pergunta que pecorre todo o livro: o governo Lula será capaz de tirar o Brazil do Prego?

            O problema, aos olhos de Gilberto Felisberto Vasconcellos, é que Lula não é Jango nem José Dirceu é Darcy Ribeiro. O desencontro trágico da recente história política brasileira. O nacionalismo dançou como ideologia global do desenvolvimento do país como queria o ISEB. Resta a esperança de que Lula passe por uma revolução psíquica e tome a farinha de mandioca como símbolo de seu mandato.        

Tenho para mim que José Guilherme Merquior consideraria Gilberto Felisberto Vasconcellos produto de uma inteligência juvenil, pois o mesmo comunga da opinião de que só o nacionalismo nos trará homogeneidade econômica e diversidade cultural entre as regiões brasileiras. Realidade que só será alcançada com a estatização da cultura via tomada do poder por uma estética nova, popular e revolucionária, cujo paradigma é o kinema de Glauber Rocha, tendo por vetor o folclore de Luís da Câmara Cascudo.

            Essa é a encruzilhada da história brasileira.

         

          Yago Euzébio Bueno de Paiva Junho é sociólogo e mestre em teoria literária (UFJF).


Escrito por Cláudio Gonzaga às 19h41
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Independência ou morte? Então todos morremos, nem nascemos

Cláudio Ângelo Corrêa Gonzaga

Imagem: fragmento da tela de Pedro Américo retratando, digo, imaginando o lendário "Grito do Ipiranga".

 

O mote do desmembramento político de Brasil de Portugal, em que o pai continuou a reinar este e o filho, antecipando a algum aventureiro, aquele, é o conhecido “independência ou morte”. Mote inteiramente falso já que, se a alternativa à independência fosse deveras a morte, então, caro leitor, desde 1822 morremos todos. Nem nascemos. Este texto não foi escrito e nem está sendo lido. Ou somos dependentes ou estamos mortos. Independentes – tenho mais certeza disto do que de estar vivo – é que definitivamente não estamos.

 Celebrar a independência, em 7 de setembro, tem vários aspectos problemáticos. Um primeiro e mais visível é a ausência de legitimidade popular nos acontecimentos. Mas é claro, os tempos eram outros, a democracia e as repúblicas estavam começando a brotar, não havia mobilização popular. Povo ignorante, você sabe como é que é. Todavia, também inexistiu, com a valorosa exceção de José Bonifácio, uma aristocracia que fosse digna do nome, que fosse além do “governo de poucos”, que hoje pudéssemos admirar pela sagacidade, bravura, ilustração ou ousadia de um projeto civilizacional.

 Um segundo problema é o amálgama de hipocrisia e idiotice em se comemorar o que não aconteceu. De Portugal à Inglaterra, da Inglaterra aos EUA, e destes a quem o suceder. “Eu sou de todo mundo”, eis o que a pátria cantaria, se cantasse. À espoliação direta portuguesa sucedeu-se à exploração do mercado pela Inglaterra que, não aceitando concorrência, destruiu, sempre com a ajuda de nossos governos, os feitos heróicos de talentos extraordinários, como os empreendimentos de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, e Delmiro Gouveia. A industrialização só foi possível quando o Estado, até então pedra no meio do caminho, passou ele mesmo a encabeçá-la, a partir de 1930. De fato, em termos de independência política e econômica, 31 de outubro significa muitíssimo mais que 7 de setembro, no que pese ainda a escassez de lastro popular (escasso, todavia crescente) daquela data. 1922 e 1930: anos dourados da autonomia brasileira avançando contra a colonização do pensamento e da economia.

 Infelizmente, a partir de 1930, quando nos livrávamos dos últimos tentáculos ingleses, com uma política externa decente e a reserva de mercado para a substituição das importações, os EUA emergem no mundo como a nova grande potência. Finda a segunda guerra, os EUA, temendo a influência do comunismo e do nacionalismo nestas terras, vislumbrando a possibilidade de ganhos (nem deviam vislumbrar tanto quanto conseguiram) pela exploração de recursos naturais e pela venda de produtos e serviços, acenam, fazem a cabeça, e depois articulam com militares e políticos (que passam a defender uma democracia nominal contra “Vargas autoritário” e “Jango comunista”). O resultado político nos custou nada mais nada menos (além do caro procedimento democrático) do que aquilo que é celebrado neste dia (a independência): eis o lance da derrubada do governo popular-nacionalista de João Goulart, que será sucedido pela instauração do regime militar, inaugurando um modelo de desenvolvimento dependente do capital estrangeiro com a atuante colaboração do tecnocrata Roberto Campos, vulgo, “Bob Fields” (dada a intensa simpatia e devoção aos interesses dos EUA).

                                                                (continua abaixo)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 18h25
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(continuação)

 

Findo o regime militar, os militares (contrariando Glauber) voltam para os quartéis. Retorna a democracia. Para muitos (excluindo-se as teses da ciência política da desestruturação partidária e crise das instituições), o golpe de 64 havia sido um ataque preventivo à ameaça (“comunista” ou "reformadora", a depender da latitude) de João Goulart. Terminada a Guerra Fria, com o fim da URSS, a ameaça comunista se desvanece. É a nossa vez. Agora, sem o perigo vermelho, e sem as amarras da ditadura, o Brasil vai à forra. Creio que este deve ter sido o pensamento otimista de muita gente. Em nossa modesta visão, aqui simplificada, o golpe, do ponto de vista dos atores, foi dado menos contra qualquer ameaça comunista em clima de Guerra Fria do que friamente calculado contra um projeto popular e nacionalista, inaugurado por Vargas, aperfeiçoado por Jango e que prometia ser aprofundado por Brizola, ferindo letalmente os interesses políticos e econômicos de nossas oligarquias dos pardais e dos EUA (a respeito, basta lembrar que Brizola, quando governador do Rio Grande do Sul, nacionalizou duas filiais de multinacionais – “ITT” e “Bond and Share”). Numa síntese, o golpe foi contra a independência do povo e do país.

Saímos da ditadura para cair de boca no neoliberalismo. Collor–FHC–Lula, o trio-elétrico do neoliberalismo. O primeiro aboliu a política de substituição das importações, quebrando a indústria nacional da noite para o dia. Os dois primeiros (Collor e FHC) alienaram a estrutura produtiva,  herança relativamente boa do regime militar, de valor incalculável, a grupos nacionais (no sentido territorial tão somente) e estrangeiros (a imperdoável privataria). Os dois últimos (FHC e Lula) elevaram os ganhos do sistema financeiro, de especuladores e bancos a níveis estratosféricos, ilógicos e que, mais do que lesar o Brasil enquanto nação e projeto de civilização, lesa e ofende a própria humanidade, tirando tanto de quem tem tão pouco. Produzir, no Brasil, tornou-se atividade irracional, já que o retorno médio dos negócios é inferior à taxa de juros. Esqueça, leitor, os paraísos fiscais caribenhos. Somos a terra do nunca dos rentistas. Nunca se ganhou tanto nunca produzindo. É preciso apenas dar a sorte de, ao nascer, escolher o lado dos 2% que detêm boa renda ou, de preferência, nascer em Boston, Londres ou Madri. Enquanto Collor e FHC foram agentes da drenagem de riquezas e recursos e decisões produtivas do país, o terceiro, Lula, foi além: esgotou a esperança de milhões de brasileiros, num governo que, com a exceção da política externa, é marcado pela colonização das idéias e pelo entreguismo dos atos. O negócio é exportar soja (pau-brasil, cana, café, cacau, algodão...). Na história, ficará muito bem colocado ao lado de Campos Sales, Dutra e FHC. E eu que votei todas às vezes em Lula. Desde a abertura dos portos por D.João VI, nunca estivemos tão longe da independência do Brasil. Nunca o centro de decisão política e da produção esteve tão distante de nós. Nunca nosso destino coletivo esteve tão apartado de nossa vontade.

Não tenho, caro leitor, absolutamente nada a comemorar. Permita-me ficar trancado no quarto pensando o Brasil e procurando aliados. Comemorar a independência no Brasil é querer dar mergulho em um rio sem água. Parece-me um ritual para parvos e autoridades. A independência, no Brasil, não é para ser comemorada. É para ser feita.

 

__________________________________________

Caso o leitor queira copiar, reproduzir, citar, imitar ou ignorar o texto acima, bem como os outros deste blog (com exceção daqueles retirados de periódicos, cujo direito não nos cabe), sinta-se inteiramente livre para fazê-lo. E se o fizer citando a fonte, ainda agradecemos.


Escrito por Cláudio Gonzaga às 18h16
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Regime autoritário e tempero positivista

Foto: Getúlio Vargas no Palácio do Catete em 31 de outubro de 1930. 

por MARCO ANTONIO VILLA

(Folha de São Paulo, 22/08/2004)

O autoritarismo brasileiro tem sua própria história: não é um mero reflexo do que ocorreu na Europa ou a reprodução atrasada, tardia, do nazifascismo. O Estado Novo foi apenas um momento deste processo _que não parece encerrado. A gênese pode ser encontrada no final do século 19, quando um grupo de republicanos, desiludidos com os rumos do novo regime, criticou severamente o domínio da elite política latifundiária, "a república dos fazendeiros". A reforma econômico-social passava pelo controle do governo central; porém isto não se daria apelando ao voto. Lembrando Karl Marx, era necessário assaltar o céu. O autoritarismo reformista _afinal nem todo autoritário é reacionário_ apontava para a organização de um Estado forte, distante do liberalismo conservador das elites brasileiras. Os revolucionários de 30 vão realizar esta tarefa _tendo à frente Getúlio Vargas. A criação de ministérios, secretarias, autarquias e de uma ampla legislação econômico-social, deu ao país as condições necessárias para enfrentar os grandes desafios colocados pela crise mundial de 1929. Retirar o Brasil da crise econômica, reinserí-lo em uma ordem mundial complexa, como a dos anos 30 _marcada pela consolidação do fascismo na Itália, do salazarismo em Portugal, a ascensão do nazismo na Alemanha e a depressão que atingiu os Estados Unidos_, permitindo a recuperação econômica já em meados de 1933, só poderia ser realizado por um Estado forte e sob novas bases sociais, rompendo com a Política dos Governadores idealizada por Campos Sales. Ou seja, não seria possível realizar o programa reformista no interior da ordem liberal tradicional, devido ao domínio exercido pelas elites políticas latifundiárias das estruturas do Estado, especialmente a burguesia cafeeira. Esta deu seu último suspiro em 1932: derrotada, abriu caminho para o estabelecimento da modernidade. Nos 15 anos do primeiro governo, somente entre 1933-1935 é que Getúlio teve de conviver com um Congresso Nacional atuante. Nos 13 anos restantes governou 3 com o Legislativo fechado (1930-1933), outros 2 renovando periodicamente o Estado de Guerra (1935-1937) e mais 8 sob a vigência da Constituição de 1937, que dava amplos poderes ao presidente.

A dificuldade de se enquadrar em uma ordem democrática não era só de Vargas: seus opositores tentaram três vezes derrubá-lo com movimentos armados, como os liberais em 1932, os comunistas em 1935 e os integralistas em 1938. Foi neste ambiente, sem tradição democrática, que não distinguia a baioneta do voto, que foi gestado o autoritarismo varguista.

O presidente buscou se equilibrar entre as diferentes facções políticas que compuseram seu governo e nem sempre fez o que desejava, como pode ser observado pela leitura dos seus diários. Administrou vaidades, concedeu prebendas, até para seus adversários, mas nunca teve o poder absoluto. Até porque, devido a ampla repressão política, especialmente depois de novembro de 1935, tinha inimigos desde à direita, passando pelo centro até chegar à esquerda. O mais estranho é que tenha conseguido ficar 15 anos no poder. É um lugar comum associar o varguismo e o fascismo, embora não haja relação substancial entre um e outro. Onde estão o partido único e os sindicatos corporativos, tão essenciais ao fascismo? Em seus discursos (basta consultar os volumes de "A Nova Política do Brasil") não há referências a conceitos fascistas. É fascista porque regulamentou os sindicatos? Por que criou a Justiça do Trabalho? Ou devido a promulgação da Consolidação das Leis do Trabalho? Getúlio agiu de acordo com o figurino autoritário brasileiro, temperado com a tradição castilhista gaúcha, onde o positivismo foi adotado como política de Estado, caso único não só no Brasil, como no mundo. Seu ídolo nunca foi Mussolini, mas sim Júlio de Castilhos: "Um santo. É santo porque é puro, é puro porque é grande, é grande porque é sábio, é sábio porque, quando o Brasil inteiro debate-se na noite trevosa da dúvida e da incerteza, quando outros Estados cobertos de andrajos com as finanças desmanteladas, batem às portas da bancarrota, o Rio Grande é o timoneiro da Pátria, é o santelmo brilhante espargindo luz para o futuro".

Dada a conjuntura mundial volátil e a fragilidade do poder interno, Vargas teve de construir políticas ao sabor dos acontecimentos, sem que necessariamente pudesse prever o que iria ocorrer. A racionalização elaborada por pesquisadores, anos depois, dá uma coerência que não foi estabelecida a priori. Esta espécie de quarta via _distante tanto do fascismo como do liberalismo e do comunismo_, associou ousadas reformas econômicas, sociais e educacionais, com uma política externa com laivos de independência, rompendo com o imobilismo de décadas do Itamaraty, desde a morte do Barão do Rio Branco. Tudo isso, tendo um projeto nacional esboçado em pleno calor da hora e o Estado como principal indutor do desenvolvimento. Com o final da Segunda Guerra Mundial e as modificações ocorridas no Brasil decorrentes dos próprios êxitos econômicos do getulismo (desenvolvimento da indústria, urbanização, ampliação do aparelho de Estado), o autoritarismo estava com seus dias contados. Pena que o 29 de outubro de 1945 tenha sido um golpe militar reacionário.


Marco Antonio Villa é historiador, professor do departamento de ciências sociais da Universidade Federal de São Carlos e autor de "Jango, um Perfil" (Globo).

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 04h04
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 Anatomia dos pacotes tecnológicos

por Gilberto Felisberto Vasconcellos 

Imagem: A rainha portuguesa Dona Maria I, a Louca, que determinou a destruição e proibição dos teares brasileiros, colocando fim à experiência da incipiente indústria manufatureira brasileira.

 

Foto: uma reunião da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina).

 

 Eis o cerne da ideologia colonialista desde o século XVI: existem países destinados a dirigir e países destinados a obedecer. É o imperativo da divisão internacional do trabalho: a colônia fornece matérias primas e gêneros alimentícios.

Com a revolução industrial do século XIX eis a ideologia colonialista: metrópoles são superiores em virtude da raça, do clima e da geografia. É a preparação ao imperialismo. A raíz de tudo isso deve-se à  transplantação cultural para a colônia dos paradigmas metropolitanos, os quais seriam os representantes da razão universal.

O apanágio cultural na colônia seria a reprodução mimética dessa razão universal concebida e veiculada pelas nações metropolitanas. Resulta daí a ótica deformada da visão colonizada que desqualifica a natureza, o local, o nacional. Conhecemos no dia a dia os dísticos do imperialismo: ajuda externa, capital estrangeiro, austeridade fiscal, etc.

Em nossa memória histórica avulta a época da alucinada Dona Maria I que mandou destruir as teares existentes no Brasil, impedindo as fábricas de algodão, linho, lã e seda.

De Dona Maria Louca à CEPAL,  o que existirá de diferente é a tutela tecnológica: processa-se a industrialização do país mas com os pacotes agregados no  exterior, portanto segundo os interesses das nações hegemônicas. Permanece o fenômeno da transplantação – só que agora na área tecnológica.

 

Gilberto Felisberto Vasconcellos é doutor em sociologia pela USP e professor na Universidade Federal de Juiz de Fora.


Escrito por Cláudio Gonzaga às 02h51
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06/09/2005

 Povo Novo

Foto: o antropólogo e educador nacionalista Darcy Ribeiro, Chefe da Casa Civil de João Goulart, fundador e primeiro reitor da UnB (Universidade de Brasília), autor de, entre outros, “O Povo Brasileiro” e "Confissões", leituras altamente recomendáveis.

 

“Mas, olha, o que eu digo sempre, é muito fácil fazer uma Austrália: pega meia dúzia de franceses, ingleses, irlandeses e italianos, joga numa ilha deserta, eles matam os índios e fazem uma Inglaterra de segunda, porra, ou de terceira, aquela merda.

"O Brasil precisa aprender que aquilo é uma merda. Que o Canadá é uma merda, porque repete a Europa. É para ver que nós temos a aventura de fazer o gênero novo. A mestiçagem na carne e no espírito. Mestiço é que é bom.”   ( Darcy Ribeiro em "Mestiço é que é bom", Ed. Revan)


__________________

OBS: Pedimos compreensão aos canadenses e australianos pelo texto escolhido: nada contra estes grandes povos. Somos contra é o BRASILEIRO COM COMPLEXOS COLONIAIS DE INFERIORIDADE que está sempre repetindo que a "Austrália (ou o Canadá, ou os EUA) é uma maravilha" em detrimento do Brasil e seu povo.


Escrito por Cláudio Gonzaga às 05h05
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 Biocombustível: negócio ou desenvolvimento social?

Imagem: logomarca do biodisel retirada de um sítio eletrônico de uma empresa estrangeira. A energia renovável e não poluente (já que a emissão de CO2 é compensada pelas plantações numa reação química balanceada) pode significar um salto civilizacional ao Brasil ou mais um capítulo de sua espoliação colonial, caso empresas multinacionais, como a Monsanto, que já obteve concessões do governo Lula, explorem a atividade. Passaremos a comprar de gringos energia produzida a partir da mamona em nosso quintal.  

 

por Fernando Siqueira e
Raymundo Araujo Filho

 O Brasil é o próprio continente tropical. É o País mais bem contemplado pela energia solar e, portanto, com a quantidade de água que tem, possui o maior potencial de produção de energia limpa e renovável através da biomassa. O petróleo brasileiro tem cerca de 20 anos de duração apenas. Para substituí-lo neste período precisamos investir pesado em energia renovável, que gastaria cerca de 22 anos para se tornar substituta do petróleo. Para tanto é necessário criar uma empresa governamental (integrada pela Petrobrás, Eletrobrás e BNDES) subordinada ao CNPE para intensificar esforços nesse desenvolvimento.

Para desenvolver esse enorme potencial é necessário que a coordenação esteja a cargo de um órgão governamental que contemple, em primeiro lugar, os interesses do País. Não é o caso das agências reguladoras que, criadas no governo Fernando Henrique, têm o vício de origem de defender os interesses de empresas estrangeiras em detrimento do interesse nacional.

Entregar a coordenação da biomassa e do biodiesel, em particular, para a ANP é o mesmo que entregar a energia renovável para a empresa americana Monsanto. Isto significa transformar o Brasil num canteiro de soja transgênica e, o que é pior, entregar o controle da energia que é o futuro do Brasil e do mundo a uma empresa estrangeira que, além do mais, não tem um histórico de seriedade e de respeito aos países onde atua.

O biodiesel é o mais rápido e eficaz energético a ser desenvolvido. Seja a partir do girassol, seja através da mamona, dendê ou qualquer outra das cerca de 12 oleaginosas, o fato é que ele pode ser plantado na forma de agricultura familiar, gerando empregos e renda para a classe mais pobre e necessitada. Não pode se transformar em mais uma fonte de geração de lucros para transnacionais e criadora de desigualdades e concentração de renda. Por estas e várias outras razões não pode ser gerido pela ANP.

E esta abordagem do biodiesel a partir de uma perspectiva principalmente da geração de lucro para empresas transacionais nos preocupa sobremaneira sob os seguintes aspectos:

1) A introdução das "commodities" transgênicas, notadamente a soja e o girassol, atrelando os custos de produção destas plantas às bolsas de mercados futuros internacionais, colocando a soberania da política energética brasileira nas mãos das manipulações não só das cotações internacionais destes produtos, mas também subjugada às políticas de preços dos insumos casados, adotadas pelas detentoras das patentes, dentro de um jogo artificial muito mais ligado à geopolítica do que aos reais custos destas empresas.

(continua abaixo)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 04h16
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(cont...)


2) Diferentemente da extração e refino do petróleo, que exige estruturas tecnológicas complexas e extremamente caras, tanto na construção de plataformas e refinarias, quanto os seus gerenciamentos, o Biodiesel, pela simplicidade da equação bioquímica para a sua obtenção, como tão bem mostrou a ministra Dilma Rousseff no lançamento do programa Biodiesel, poderá ser a verdadeira redenção dos (as) agricultores (as) familiares que poderiam ter em seu meio, muito próximo aos locais de produção da matéria-prima, estruturas de obtenção e refino do Biodiesel, trazendo, de forma revolucionária, uma forte agregação de valores às suas atividades agrícolas.


O BNDES deve alocar recursos para que os pequenos e médios agricultores tenham condições de plantar e colher os frutos do seu trabalho gerando riquezas para o País e não para remeter ao exterior. Assim, permitiremos que os agricultores deixem de ser meros produtores de primários para se tornarem sócios, senão majoritários, pelo menos de grande importância nesta revolução tecnológica que está em curso. Não tem sentido o que disse o presidente: os pequenos agricultores (agriplantadores) ganharem apenas R$ 3 mil por ano (menos de um salário mínimo por mês). Eles têm que ser os agentes principais desta revolução agrícola e tecnológica.


3) É a Petrobrás, através do seu Centro de Pesquisas e de seus quadros técnicos, que poderá auxiliar os(as) Agricultores(as) a alcançarem a excelência técnica na obtenção de um Biodiesel de qualidade, e não a ANP, sem nenhuma tradição ou quadros competentes para a ação em campo. Foi a Petrobrás que viabilizou o Pro-Álcool e gerou a patente e os primeiros projetos de biodiesel.


4) A questão do cultivo destas plantas que serão utilizadas na produção do biodiesel terá de ser executada, obrigatoriamente, dentro dos preceitos agroecológicos. Não haveria sentido atrelar ao cultivo, por exemplo, da mamona, a utilização de uréia, um subproduto do Petróleo, combustível a ser substituído em breve tempo.


Também não faria sentido, a utilização de venenos agrícolas para conter pragas, advindas, em parte, pelo uso destes fertilizantes, além da contaminação de mananciais hídricos e nichos naturais, para a produção de um bem, o biodiesel, que vem com a mensagem da despoluição do Planeta Terra, na geração de energia.


Fernando Siqueira é diretor de Comunicações da Aepet e Raymundo Araujo Filho é médico veterinário homeopata e colaborador da Aepet.

________________ 

Matéria enviada pelo colaborador Milton Lima, de Brasília. Originalmente publicada no jornal Tribuna da Imprensa em 06/04/05.

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 04h14
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05/09/2005

Frase da semana

Foto: o maior estudioso da  cultura popular brasileira: Luís da Câmara Cascudo

 

“Sempre esperamos valorização do nacional pela opinião estrangeira do alienígena. Se houver concordância é que estamos certos. No contrário, é tempo de corrigirmos a usança, evitando o atraso, a retrogação, a barbárie. Os nossos são padrões da gente de fora, embaixadores nas terras sábias e dos povos cultos” (Cascudo em Rede de Dormir)

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 11h55
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Mais um

Olá a todos. Estou me juntando ao movimento e, por isso, vou primeiro me apresentar. Meu nome é Jorge Marum, sou promotor de Justiça em Sorocaba-SP e professor de Ciência Política (Teoria Geral do Estado) e Direito Constitucional na Faculdade de Direito de Sorocaba. Também sou o representante, na região, da Escola Superior do Ministério Público de São Paulo. Fiz mestrado em Direito do Estado na USP sob a orientação do grande jurista Dalmo Dallari. Como o jovem Ernesto Guevara de la Serna, no filme Diários de Motocicleta, há muito tempo me decidi pela margem esquerda do rio. Todavia, embora a solidariedade internacional, na qual acredito, seja um dos postulados do socialismo, também acredito que é obrigação dos brasileiros pensar, primeiro, na prosperidade econômica e social do seu país e no bem-estar de seu povo, defendendo a produção e a cultura nacionais e reivindicando que o Estado cumpra o seu dever essencial, que é zelar pelo bem comum, especialmente dos brasileiros mais carentes. Por tais motivos, me identifico com este blog e pretendo dele participar.

Parabenizo Cláudio Gonzaga pelo seu trabalho e, para finalizar deixo, deixo uma das minhas citações preferidas, que é um trecho da obra de Montesquieu, O espírito das leis e que eu acho que se encaixa perfeitamente na situação política que vivemos hoje:

“Os políticos gregos, que viviam em Governo Popular, não reconheciam outra força de sustentação senão o patriotismo. Os de hoje não nos falam senão de manufaturas, de comércio, de finanças, de riquezas e de luxo mesmo. Quando o patriotismo acaba, a ambição penetra nos corações que a podem receber, e a avareza entra em todos. Os desejos mudam de objeto: o que se amava não se ama mais; era-se livre com as leis, e se quer ser livre contra elas; cada cidadão é como um escravo fugido da casa de seu senhor; o que era máxima chama-se rigor; o que era regra, chama-se agora estorvo; o que era ali atenção chama-se temor. A frugalidade é que é aí a avareza, e não o desejo de ter. Antes, o bem dos particulares constituía o tesouro público; agora, porém, o tesouro público torna-se patrimônio dos particulares. A República é um despojo; e a sua força não é mais do que o poder de alguns cidadãos e a licença de todos ”.

        


Escrito por Jorge Marum às 07h28
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04/09/2005

 “é intolerável para os norte-americanos um outro Japão ao sul do equador” 

          

J.W. Bautista Vidal e eu mostramos a presença deletéria das corporações transnacionais do petróleo interferindo nos rumos da história do Brasil. Por ter demolido o velho tabu da inexistência do petróleo entre nós, Getúlio Vargas foi arredado do poder, citando explicitamente a Petrobrás na trágica Carta Testamento, de modo que com a era Vargas a questão energética converte-se no pivô da história. Petrobrás e Eletrobrás. A criação de uma empresa estatal e nacional de energia  está no cerne da história do Brasil a partir de meados dos anos 50 . O elemento decisivo responsável pelo fim do governo Vargas foram as transnacionais da energia: petróleo e eletricidade.

Na seqüência de 64, nos capítulos de sua estética antinacional, a telenovela se empenhará com esmero em erradicar da memória brasileira a obra de Getúlio Vargas. Por outro lado, os livros didáticos de história nas escolas, junto com algumas vozes do PT, a partir de 1979, irão tentar persuadir a juventude de esquecer esse exu baixo astral do nacionalismo brasileiro, estigmatizado de autoritário, de fascista, de líder burguês. O fato irrecusável é que em 1954 todos os jornais, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, pregavam a cruzada antinacionalista por causa da política de emancipação energética de Vargas, o que revela como a criação de uma empresa autônoma de energia determinou os rumos da nossa história .

Logo em seguida à implantação do Proálcool, iniciado em setembro de 1975, no governo Geisel, como conseqüência essencial na batalha anti-colonialista de substituir os derivados dos combustíveis fósseis, carvão mineral e petróleo – surge grupo de cientistas e engenheiros que formaram a Escola da Biomassa para garantir a apropriação e o controle dessa forma extensiva e permanente de energia em mãos nacionais. Os fundamentos filosóficos, culturais e políticos dessa Escola, apoiados na aplicação aos trópicos de ciência não colonizada, foram consubstanciados no documento “Energia da Biomassa: Alavanca de uma Nova Política Industrial”, de agosto de 1986, elaborado por J.W. Bautista Vidal, engenheiro e físico, Sebastião Simões Filho, engenheiro químico, Sérgio de Salvo Brito, engenheiro nuclear e Marcelo Guimarães de Mello, geólogo. Foi editado pela Secretaria de Tecnologia Industrial no governo de José Sarney que não deu conseqüências ao documento formal apresentado. Na realidade, essa administração federal acabou com o desenvolvimento da alternativa energética tropical brasileira, desmontando a STI e desativou seus programas. Esse processo teve início no governo do presidente Figueiredo, dando conseqüências ao veredicto de finais de 1978 de Henry Kissinger: “é intolerável para os norte-americanos um outro Japão ao sul do equador”, querendo referir-se ao Brasil da era Geisel.

 

 


Escrito por Gilberto Vasconcellos às 20h06
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A tragédia do carro genuinamente NACIONAL: o caso da Ibap

Foto: o pórtico da fábrica da Ibap. Seu logotipo era uma engrenagem estilizada com o contorno do mapa do Brasil no centro. Na porta da fábrica havia uma placa com dizeres que terminavam assim: "Juntos estamos dando ao mundo o maior exemplo do que um povo livre e unido pode realizar." O regime militar, favorecendo multinacionais do setor automobilístico (como a alemã Volkswagen) não tolerou o empreendimento. 

 

A Indústria automobilística é uma das mais rentáveis e, talvez, em se tratando de bens de consumo duráveis, a mais importante do século XX. Tradicionalmente, apenas países desenvolvidos (EUA, Japão, França, Itália, Alemanha, Rússia...) possuem indústria automobilística própria, com poucas exceções a esta regra. O Brasil, como veremos na matéria abaixo, esteve perto de pertencer ao seleto grupo de produtores de carros genuinamente nacionais (não nos referimos aos carros produzidos por plantas industriais estrangeiras localizadas no país, como a Wolks, Ford, Chevrolet, Fiat, Renault etc.). Na verdade, com o empresário Gurgel (de quem iremos tratar em outro texto), criador da Gurgel Motores, temporariamente pertencemos àquele grupo.

 A reportagem abaixo narra uma história anterior à de Gurgel e, em certo sentido, mais dramática. Ao passo que Gurgel chegou a desfrutar da simpatia e mesmo incentivo do regime militar em determinados momentos de sua brilhante trajetória, a Indústria Brasileira de Automóveis Presidente (Ibap) contou, desde o início, com a oposição e quase sabotagem dos militares. A razão disto terá sido o enlace da ojeriza provocada pelo posicionamento contrário à ditadura por parte do fundador da Ibap, Nelson Fernandes (que batizou seu primeiro modelo de “Democrata” e, quase provocativamente, inscreveu em uma placa, no pórtico da fábrica: "estamos dando ao mundo o maior exemplo do que um povo livre e unido pode realizar" – destaque nosso) com os interesses das multinacionais do setor, com seus aportes nos anos JK.

 Sabemos que a ditadura não foi própriamente entreguista (este título melhor cabe aos governos neoliberais, de Collor a Lula, passando pelo principal, FHC). A política de substituição das importações permaneceu parcialmente com a ditadura (evidentemente, não com peso que teve com Vargas e Jango, que tentaram por freios à importação e à remessa de lucros ao exterior), e sempre existiram boas relações entre os tecnocratas militares e os industriais paulistas, cuja associação resultou em muitos empreendimentos conjuntos, como o Pró-Álcool, a indústria bélica nacional e, no fim do regime, um setor de informática genuinamente nacional (completamente abandonado de Collor até Lula). Certamente, o avião “bandeirante”, da Embraer, o álcool motor, o computador “Pato Feio” (desenvolvido pela USP) e o reconhecimento da independência de Angola não foram atos pró-USA. Todavia, talvez em ato de reciprocidade ao apoio administrativo e logístico fornecido pelos EUA ao Golpe de abril de 1964, à afinidade ideológica (cuja fonte era a ESG) e a cooperação militar com os EUA em tempos de guerra fria, muitos setores da economia (altamente rentáveis e tecnologicamente avançados) foram reservados às multinacionais. Este parece ter sido o caso da indústria automobilística. E o que nos leva a afirmá-lo é sobretudo este incidente: ao decidirem (por que decidiram?) vender (ou privatizar, como diríamos hoje) a Fábrica Nacional de Motores, concebida por Getúlio Vargas para produzir veículos nacionais (primeiro motores para aviões, depois, os legendários caminhões FeMeNês), os militares preferiram absurdamente entregá-la ao capital estrangeiro (a venderam para a Alfa Romeu, que depois a vendeu à Fiat que, por fim, a fechou) a um preço inferior ao oferecido pela nacional IBAP.

 Confira toda a história na matéria abaixo e, se puder, manifeste sua opinião, comentando o caso.


Escrito por Cláudio Gonzaga às 00h52
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 Saiba mais sobre a Ibap

                                     Foto: o modelo Democrata, produzido pela Ibap era considerado avançado até mesmo em relação aos concorrentes multinacionais.

"A Indústria Brasileira de Automóveis Presidente (Ibap) foi uma empresa genuinamente nacional que criou um carro de luxo, com tecnologia, desempenho e desenho muito mais avançados que os de seus concorrentes da época. Chamava-se Democrata o elegante sedã. O nome da fábrica era Presidente, e seu logotipo era uma engrenagem estilizada com o contorno do mapa do Brasil no centro.

"Na porta da fábrica havia uma placa com dizeres que terminavam assim: "Juntos estamos dando ao mundo o maior exemplo do que um povo livre e unido pode realizar." Apesar de todo o patriotismo demonstrado pela empresa e do grande potencial que ela tinha para gerar empregos, tecnologia e riquesas para o país, uma grande e cruel ironia seguiu-se: ela foi destruída pelo próprio Governo Brasileiro.

"A história tem origem na iniciativa de um jovem empresário chamado Nelson Fernandes, então proprietário de um clube e de um hospital. Ele construiu sua fábrica de automóveis em um terreno em São Bernardo do Campo (SP), e a inaugurou em outubro de 1963. A fim de levantar recursos para viabilizar o projeto, Nelson Fernandes vendeu títulos de proriedade da Ibap (recurso semelhante foi utilizado vinte anos depois pela Gurgel, quando do lançamento do BR-800). Nesse processo a Ibap conseguiu reunir nada menos que 50 mil sócios-proprietários! Tudo graças à qualidade do projeto e à credibilidade dos empreendedores. Esses sócios proprietários tinham direito a dividendos e descontos especiais na aquisição do veículo.

"O Democrata era um projeto avançadíssimo. A começar pelo seu desenho, fluido e elegante, só igualado anos mais tarde. A carroceria era de fibra de vidro e contava com uma qualidade altíssima nos acabamentos e peças encaixadas com perfeição. Ele levava cinco passageiros e sua bagagem. Os bancos dianteiros eram individuais e reclináveis, entre eles havia um console. O carro era equipado ainda com rádio e direção hidráulica.

"Mas o grande trunfo do carro era a sua mecânica, desenvolvida no Brasil pelos engenheiros da Ibap, à excessão do motor, criado pela empresa italiana Procosautom (Proggetazione Costruzione Auto Motori) exclusivamente para o Democrata. O motor, instalado na traseira, era um V6 (com ângulo de 60°) 2.5 com bloco em alumínio que desenvolvia 120 cv a 4500 rpm. Uma potência elevadíssima para a época (bastante razoável até mesmo para os dias de hoje). O carro tem 4,68m de comprimento; 1,72m de largura; 1,39m de altura; bitolas dianteira e traseira com 1,39m e distância livre do solo, de 21cm. Seus 1 150 kg de peso eram impulsionados de 0 a 100 km/h em apenas 10 s, e os 120 cv ainda eram capazes de levar o Democrata aos 170 km/h de velocidade máxima.


"Com tantas qualidades e a promessa de preços acessíveis, a Ibap e seu Democrata tinham tudo para conquistar boa parte do mercado brasileiro. Tamanho potencial também despertou preocupação em muita gente que tinha interesses contrariados. O Democrata foi alvo de uma abominável campanha difamatória, atribuída às montadoras concorrentes e que teve a conivência do Governo, ocorrendo inclusive algumas declarações muito infelizes por parte do ministro da Indústria e Comércio. A maior parte dos boatos punha em dúvida a durabilidade da carroceria em fibra de vidro. A fim de desmistificar o material, a Ibap fez uma campanha itinerante, levando Democratas a vários pontos do país e permitindo que as pessoas literalmente surrassem o carro com canos de ferro, a fim de comprovar que a resistência da fibra era até maior que das chapas de aço!

"Mas os boatos mal-intencionados não eram nada perto do que estava por vir. O primeiro incidente foi a interceptação de um lote de peças vindas da Itália para a Ibap. A alegação era de que a carga seria um contrabando, apesar de a mercadoria ter origem regular e estar acompanhada de toda a documentação. Isso fez com que a Ibap se tornasse alvo de acusações infundadas que foram desmentidas por meio de um laudo de engenharia e contabilidade solicitado pela empresa à Polícia Técnica.


Escrito por Cláudio Gonzaga às 00h34
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(cont....)



"Outra situação inexplicada ocorreu quando o Governo colocou a FNM (Fábrica Nacional de Motores [criada por Getúlio Vargas durante a 2ª Guerra]) à venda. A Ibap interessou-se por comprar a estatal, o que viabilizaria antecipar a produção do Ibap popular. A própria diretoria da FNM mostrou-se satisfeita com a possibilidade de ter a empresa absorvida por outra nacional. Desse modo, a Ibap entrou em contato com seus associados, ficando acertado que cada um deles contribuiria com uma quantia a fim de que fosse adquirida a FNM, em seguida foi formalizada a proposta de compra, oferecendo em garantia o terreno da Ibap em São Bernardo do Campo, quando tudo indicava que a FNM tornar-se-ia parte da Ibap, a proposta de compra foi recusada sem maiores explicações pelo Ministério da Indústria e Comércio, A Ibap ainda tentou participar da concorrência pelo cartório do Registro de Títulos e Documentos. Mas houve nova recusa, limitando-se o Ministério a alegar que faltava à Ibap respaldo financeiro para participar.

"Em seguida a FNM foi entregue a um grupo estrangeiro por um valor irrisório. Abaixo do que fora proposto pela Ibap. Durante as negociações de venda da FNM, a Ibap ainda foi vítima de outro "incidente": a Polícia Federal fez uma "batida" em suas dependências, apreendendo livros contábeis, extratos de contas bancárias e todos os projetos e documentação da empresa. Esse evento foi um dos expedientes de que lançou mão o Ministério da Indústria e Comércio para recusar a proposta da Ibap. No entanto, nenhuma irregularidade foi constatada no exame dos papéis.

"Então veio incidente decisivo. Em uma inspeção relâmpago, o Banco Central elaborou um laudo atestando inexistência de itens para a produção ou mesmo montagem de quaisquer dos componentes do veículo motorizado; inexistência de contratos com quaisquer das fábricas de veículos ou autopeças, quer no país, quer no exterior; não constar da organização da empresa a presença de técnicos em quaisquer das numerosas especialidades essenciais à fabricação de automóveis, ou à elaboração dos projetos respectivos. Esse laudo era completamente absurdo. A simples constatação de que havia uma fábrica de automóveis legalmente constituída há dois anos, com algumas unidades prontas e mais cinqüenta sendo produzidas seria o bastante para refutar essa aberração. Isso sem contar que a empresa foi aprovada sem restrições por inspeções anteriores da Polícia Técnica e do Banco do Brasil. Então o Banco Central ainda moveu processos contra a Ibap acusando-a de coleta irregular de poupança popular sob falsa alegação de construir uma fábrica de automóveis. Mesmo sendo as acusações infundadas, os diretores da Ibap foram condenados. Fato para o qual o Ministério Publico simplesmente fechou os olhos.

"A esse tempo, Nelson Fernandes ficou sabendo por um amigo, o então presidente da SUDEP, vice-almirante Antonio Maria Nunes de Sousa, que se não desistisse da Ibap, diretores da empresa e seus familiares sofreriam represálias. Foi quando Nelson foi obrigado a "aceitar" que a sociedade fosse "amigavelmente" dissolvida. Após ouvir o Procurador da República, o juiz de Direito da 1ª Vara da Justiça Federal de São Paulo, homologou, por sentença, a dissolução da Ibap pondo fim ao rumoroso processo nº 115855 que, só em poder do perito judicial tinha ficado durante treze anos.

"Desse modo, o lançamento do Democrata foi abortado, em 1968, com apenas cinco unidades concluídas. A história toda é bizzarra. O patrimônio da empresa foi seqüestrado pela justiça, que somente vinte anos mais tarde reconheceu ter sido indevida a intervenção do Banco Central na empresa as instalações da fábrica ficaram abandonadas por todos esses anos. Somente no início dos anos 90 a área foi liberada e o Centro Automotivo Finardi, de São Paulo (SP), arrematou dois carros quase completos e muitas peças que lá se encontravam.

"Em 1999 foi encontrado um terceiro Democrata, que foi adquirido pela Finardi e completamente restaurado em tempo recorde pela empresa. Detalhe impressionante é que o motor desse veículo pegou de primeira quando foi encontrado, apesar de estar parado há anos, esse carro foi a grande atração do último encontro do Veteran Car Club de Brasília (VCC-BSB), contando com o apoio do jornalista Roberto Nasser, membro do VCC-BSB e que foi um dos poucos a dirigir o Democrata na época do seu lançamento. Os dois outros Democratas encontrados serão igualmente reformados pelo Centro Finardi. Um dos carros ficará com os irmãos José Carlos e José Luiz Finardi, proprietátios da oficina, um com o VCC-BSB e outro com Nelson Fernandes, que atualmente é proprietário de um cemitério vertical em Curitiba (PR).

"Organizando um livro sobre a indústria automobilística brasileira, o jornalista Roberto Nasser, curador da Fundação Memória do Transporte, descobriu duas unidades do automóvel nas ruínas do que fora a fábrica. Consumiu um mês para chegar ao antigo empreendedor, Nelson Fernandes, que se mudara de cidade e de ramo de negócio, provocando-o a escrever, no livro, o capítulo referente à IBAP, e a restaurar, salvando de fim certo e breve, um dos Democratas. Fernandes sensibilizou os irmãos Finardi, José Carlos e José Luiz, donos do centro automotivo com o mesmo nome em São Bernardo do Campo, SP -- eles mesmos cotistas da IBAP --, a restaurar um dos exemplares, trabalho impressionante de transformação de um escombro em automóvel em apenas 20 dias. O resultado destas iniciativas foi exposto no III Encontro Brasileiro de Veículos Antigos, que se realizou no Centro de Convenções Ulysses Guimarães como parte do 40° aniversário de Brasília. É a apresentação, após 32 anos, do automóvel que não foi lançado.

Fonte:
http://www.uol.com.br/bestcars/nasser/70n.htm
http://www.montadorasbrasileiras.hpg.ig.com.br/carreira/40/index_int_5.html
http://www.jt.estadao.com.br/editorias/2001/02/08/ger593.html
acesso em março de 2002
http://freehost18.websamba.com/rodrigao/brasileiras/bribap.htm
acesso em novembro de 2002"

Fonte da matéria: http://inventabrasilnet.t5.com.br/democrt.htm


Escrito por Cláudio Gonzaga às 00h30
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03/09/2005

 

Sem medo de ser feliz sob o gongo do FMI

 

A palavra "estrangeiro" para designar o objeto de ira anti-imperialista não dá conta do que está acontecendo entre nós. 70 por cento do PIB são de não residentes no país. O brasileiro continuará, nos próximos decênios um estrangeiro em sua própria terra. À "ninguendade" antropológica de Darcy Ribeiro será preciso acrescentar a ninguendade territorial do homem brasileiro. Se perdemos para os hermanos ianques a patente da água de coco e da rapadura, então não terá o menor sentido evocar o venerando instinto de nacionalidade. 

Machado de Assis fuck you!

O território já não nos pertence, portanto não existirá sentimento nacional algum. Somos o país menos xenófobo do mundo. Brasileiros sem Brasil. Chegamos a esse paradoxo. O bacana é o estrangeiro. A noção de posteridade é dada pelo estrangeiro, dizia o historiador Capistrano de Abreu.

Nesta altura da apropriação internacional das privatizações, é ridículo o intelectual ou o artista querer pousar de "cidadão do mundo". Isso é mais do que a universalidade abstrata de que falava Karl Marx. É a universalidade idiota. O que existe de maneira escandalosa é o interesse nacional do outro, embora a idéia de "imperialismo" tenha ido para a lata do lixo da história.

Nas décadas vindouras, o brinde será dado ao intelectual brasileiro que não é nacionalista, como foi o caso do diplomata José Guilherme Merquior, definindo-se brasileiro mas não nacionalista. É um equívoco atribuir ao nacionalismo advindo com a Revolução de 30 o estigma de xenofobismo. O nacionalismo brasileiro é anti-xenófobo ou não é nacionalismo.

 


Escrito por Gilberto Vasconcellos às 11h19
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"Se há uma pessoa preparada no Brasil para liderar o nosso enfrentamento aos Estados Unidos sou eu"

Na foto: Roberto Mangabeira Unger

 

Roberto Mangabeira Unger, consagrado no exterior como um dos pensadores mais importantes de nossos dias e aliado histórico de Leonel Brizola, é defensor (para quem não o conhece, paradoxalmente) de uma alternativa nacional ao governo Lula. Veja parte da entrevista concedida ao Jornal "A Cidade" (clique aqui para ler a entrevista completa), de Ribeirão Preto:

"Professor de uma das mais prestigiadas universidades do mundo -a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos-, Roberto Mangabeira Unger diz que se há uma pessoa preparada no Brasil para liderar o enfrentamento do país contra os Estados Unidos é ele. E ele quer ser agora presidente da República. Filiado ao PDT, está rodando o Brasil para apresentar, com um arrastado sotaque norte-americano, sua proposta de governo para o país, além de fazer duras críticas ao governo federal e também à oposição. No Brasil, Mangabeira é pouco conhecido da grande maioria da população, mas é o pensador brasileiro mais conhecido no exterior. Leia abaixo a entrevista que ele concedeu ao A CIDADE sobre suas propostas para o Brasil.

(...)
Cidade: O senhor participou da candidatura do Ciro Gomes (ministro da Integração Nacional e candidato do PPS a presidente em 2002). O senhor foi uma espécie de guru de Ciro Gomes. O senhor acreditou que naquele momento a alternativa era o Ciro?
Mangabeira: Nós apoiamos o Ciro Gomes, todos nós. O meu aliado e grande amigo Leonel Brizola também. Mas nós agora temos que ir para a frente. Todos nós tivemos uma desilusão, um desapontamento depois do outro, mas nós não podemos nos deixar abater com isso.  
(...)

Cidade: O senhor falou em educação. O senhor acha que a educação é o principal caminho?
Mangabeira: É uma das três vertentes essenciais em que eu insisti. Não é só educação. O primeiro é a primazia aos interesses do trabalho e da produção, enquadrando os interesses financeiros. Não mais ter um modelo de desenvolvimento que tenha como pressuposto a desvalorização salarial, o aviltamento salarial, e que condene à informalidade quase dois terços da nossa força de trabalho. Há iniciativas muito simples que teriam um efeito dramático sobre a informalidade, como abolir todos os encargos sobre a folha salarial e passar a financiar os direitos trabalhistas com os impostos gerados. Segunda iniciativa essencial: a educação como prioridade, que são mínimos de investimento por aluno e de desempenho por escola, associação dos três níveis da federação em órgãos conjuntos que intervenham para corrigir e para redistribuir recursos e quadros quando os mínimos não forem atendidos. Revolução no método do ensino. Isso aqui deixa de ser um ensino informativo, enciclopédico, passivo, e passe a ser um ensino analítico e capacitador. E multiplicação de apoios para os alunos pobres, esforçados e talentosos, para criar uma contra-elite republicana. E a terceira é essa de romper os acertos plutocráticos. Enquanto o governo estiver sob a sombra dessa plutocracia, nada do que eu proponho vai acontecer. (...)

Eu daria como outro exemplo desse enquadramento dos interesses financeiros o Brasil integrar-se à economia mundial, mas de uma forma ativa, não passiva. Nos nossos termos, subordinado à nossa estratégia nacional de desenvolvimento. Por exemplo, como fazem a China e a Índia, negociar com as multinacionais para condicionar a presença delas à transferência de tecnologia adiantada e a qualificação do trabalhador brasileiro. Então, há toda uma série de idéias difundidas no Brasil fatalistas feitas para, em nome de chavões como globalização justificar a rendição. A rendição não é necessária, o que é necessário agora no Brasil é a afirmação nacional, rebeldia nacional, proposta nacional.

Cidade: Algumas pessoas na campanha podem dizer como pode um professor da Universidade de Harvard, que mora há tanto tempo nos Estados Unidos, que fala até com sotaque arrastado, falar da questão nacional.
Mangabeira: Se há uma pessoa preparada no Brasil para liderar o nosso enfrentamento aos Estados Unidos sou eu, porque eu conheço os Estados Unidos, eu conto entre os meus ex-alunos com muitas figuras liderantes na vida política e empresarial dos Estados Unidos. Eu conheço, eu sei como fazer, eu estou preparado. Isso não é desvantagem isso é vantagem."

(negrito nosso)


Escrito por Cláudio Gonzaga às 02h16
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FALE ALTO: PUBLIQUE SEU TEXTO AQUI!

 

O NACIONAL,  o blog dos nacionalistas esclarecidos, é um blog comunitário e de mão dupla: além de você ler o que publicamos, você pode publicar para o lermos. Talvez tenha alguma notícia ou artigo interessante, que você gostaria de ver publicado aqui. Neste caso, basta enviar uma mensagem para claudioacgonzaga@yahoo.com.br (este é o correio do menos ilustre dos que escrevem em O NACIONAL) com o material.

Agradecemos sua visita e a retribuímos com nosso esforço em colher e selecionar o melhor do pensamento brasileiro descolonizado para sua apreciação. 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h00
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02/09/2005

 

 GOLPE 64

Foto: soldados brasileiros em 1964

O golpe de 64 foi militar na aparência, pois na verdade a  derrota da democracia janguista foi política, inclusive o regime pós-64 persistiu disfarçado de militar. O golpe de 64 tem de ser visto como um acontecimento político operado por forças militares. Nelson Werneck Sodré diz que os militares fizeram apenas a operação cirúrgica. O que houve previamente ao golpe foi a derrota política das forças populares. “Jejunos em política, alimentados pela propaganda", os militares, segundo Sodré, entraram de gaiato fazendo o jogo da classe dominante que escancarou o mercado interno às multinacionais.

Trinta anos depois, os militares estão pagando o preço desse equívoco histórico: do exterior vem a palavra de ordem em transformar as Forças Armadas em “força policial mal armada e mal paga”. O Exército brasileiro acabou sendo vítima do que fez. Levou na cabeça, vendo atônito e impotente a destruição do patrimônio do Estado.

Em suas conferências J.W. Bautista Vidal tem chamado a atenção para o seguinte paradoxo: o nacionalismo dos militares e o entreguismo do regime militar de 64 sob a regência dos tecnocratas Roberto Campos e Delfim Neto. Voltamos ao reprimido. Darcy Ribeiro rememorava contra os economicistas monetários que, de 64 para cá, fomos keynedianos, shumpeterianos, friedmanianos, mas só conseguimos alguma coisa com a aplicação dos princípios nacionalistas, trabalhistas e protecionistas. Mas não é isso o que acha o PT do Lula com o seu ódio a tudo que vem de Vargas, de Jango, de Darcy e de Brizola.


Escrito por Gilberto Vasconcellos às 19h18
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CINEMA É PETRÓLEO!

Na foto, o cineasta Glauber Rocha

 

O ponto fraco do nacionalismo brasileiro é a ausência de uma imprensa a favor do Brasil, sem falar do massacre ideológico representado pelo cinema americano roliudiano  durante a Segunda Guerra Mundial. Eis o drama da Era Vargas: esse seu governo não recebeu o menor apoio dos meios de comunicação de massa. Pelo contrário, recebeu sempre hostilidade. A história do Brasil será determinada pela política desses meios de comunicação, conforme o recado do cineasta Glauber Rocha, que surpreendentemente nasce getulista na Bahia, isto é, na terra de Otávio Mangabeira e, simultaneamente, nasce com identidade antiimperialista.

Tenho por mim que Glauber Rocha pode ser considerado o Getúlio Vargas do cinema, espécie de longa metragem da Carta Testamento, por ter denunciado a alienação nacional na esfera do som e da imagem. É evidente que o cinema roliudiano, apoteótico do papel dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial, iria fazer a cabeça de muitos militares das nossas Forças Armadas submetidas ao fetichismo tecnológico com a compra de armamentos dos Estados Unidos. Lembro Glauber Rocha tematizando várias vezes a tragédia de 64: “ – Cinema é petróleo!”


 


Escrito por Gilberto Vasconcellos às 18h32
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Este Blog NÃO PERDOA a privataria!

 

Quem quiser informação abundante sobre o processo de privatização dos anos FHC encontra rico material no livrinho "Brasil Privatizado", de Aloysio Biondi, felizmente disponível em um sítio eletrônico da USP:

http://www.bibvirt.futuro.usp.br/textos/humanas/economia/brasilprivatizado/brasilprivatizado.html

Trechos (estarrecedores) do livro:

 

"Antes de vender as empresas telefônicas, o governo investiu  21

bilhões de reais no setor, em dois anos e meio. Vendeu tudo por

uma "entrada" de 8,8 bilhões de reais ou menos – porque financiou

metade da "entrada" para grupos brasileiros.

Na venda do Banco do Estado do Rio de Janeiro (Banerj), o "comprador"

pagou apenas 330 milhões de reais e o governo do Rio

tomou, antes, um empréstimo dez vezes maior, de 3,3 bilhões de

reais, para pagar direitos dos trabalhadores."

(...)

as empresas multinacionais ou brasileiras que

"compraram" as estatais não usaram capital próprio, dinheiro

delas mesmas, mas, em vez disso, tomaram empréstimos lá fora

para fechar os negócios. Assim, aumentaram a dívida externa do

Brasil. É o que se pode demonstrar, na ponta do lápis, neste "balanço"

das privatizações brasileiras, aceleradas a partir do governo

Fernando Henrique Cardoso.

(...)

Ao contrário: com a conivência e até incentivos do governo,

esses setores vêm realizando importações explosivas, "torrando"

dólares e ampliando o "rombo" da balança comercial (exportações

menos importações). Além disso, os "donos" multinacionais

das empresas privatizadas passaram a realizar remessas

maciças para o exterior, para seus países, seja como lucros, dividendos,

juros ou até como pagamento de "assistência técnica" ou

"compra de tecnologia" de suas matrizes. Em lugar de ajudar a

tapar o "rombo" externo, a privatização o agravou, e de forma permanente.

Como? Decisões do governo que dessem preferência ao

produtor local poderiam corrigir distorções e levar à redução nas

importações. Mas as remessas às matrizes permanecerão. Para

sempre.

Quando preparava a privatização, o governo chegou a acenar

com a possibilidade de obrigar as fábricas locais a usarem pelo

menos 35% de peças e componentes nacionais. À medida que o

leilão se aproximava, porém, o governo foi recuando, rebaixou

aquela previsão para 20% de índice de nacionalização e, no final,

às vésperas do leilão, descartou qualquer obrigatoriedade de compra

de peças nacionais. Estabeleceu, apenas, que o BNDES iria financiar

fabricantes do país, quando seus produtos competissem

com similares estrangeiros em termos de preço, tecnologia e prazo

de entrega. Ao regulamentar a decisão, porém, houve novo recuo

governamental: os financiamentos serão concedidos às próprias

empresas "compradoras" das teles, que terão liberdade para

escolher os fornecedores, mantendo-se a "preferência" pelo produto

nacional, dentro das condições expostas acima. Isto é, tudo

apenas para inglês ver... Resultado: em suas primeiras "concorrências"

para a compra de equipamentos, em março de 1999, a

Telefônica, compradora da Telesp de São Paulo, não convidou uma

única empresa brasileira fabricante de peças e equipamentos para

disputar as encomendas.


Escrito por Cláudio Gonzaga às 01h35
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01/09/2005

OS IDEAIS DESTE BLOG

Zumbi, símbolo de "O Nacional"

 Este blog persegue um antigo sonho brasileiro e universal, o da emancipação individual e coletiva.  Tomamos para símbolo de “O Nacional” o retrato de Zumbi dos Palmares, o ex-escravo que recusou o nome de batismo (católico), adotou nome de origem africana (Zumbi) e, abandonando a sociedade branca (e opressora) luso-brasileira, fugiu para o Quilombo dos Palmares, do qual tornou-se o maior líder. Zumbi, representante da mais explorada e escravizada etnia brasileira (a negra) para nós simboliza a vontade de emancipação individual (o escravo, o brasileiro) e coletiva (Palmares, o Brasil) e progresso material. A utilização de Zumbi como nosso símbolo também serve para colocar em foco outra questão: a racial. Não é possível resolvermos nossas pendências externas sem removermos este cancro interno. 

 O ideal de um Brasil independente foi acalentado por rebeldes de Vila Rica, alfaiates de Salvador, republicanos de Recife, por José Bonifácio, por Vargas, Villa-Lobos, João Goulart, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha e Brizola, dentre outros. Alguns dos defensores deste sonho foram elitistas (quando a vontade de emancipação coletiva prejudica a pessoal) e autoritários, herança que dispensamos. Outros, porém, populares e democráticos, autônomos e autênticos. Todos, no entanto, se ligam pela identificação incondicional com um povo brasileiro forte. Tiveram por certa a esperança de que este país, tão esplêndido em seu tamanho, tão exuberante em sua natureza e riquezas, também abrigará uma civilização humana simétrica a esta prodigalidade natural, já que, para esta tão saudável utopia brasileira,

“Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre, porque mais sofrida. Melhor, porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra.” (Darcy Ribeiro)

Neste sentido, nosso esforço deve ser entendido como uma das iniciativas para a retomada do velho e inacabado sonho de um Brasil descolonizado que se reconhece enquanto projeto original de civilização e ambiciona realizar todas as suas potencialidades para se fazer um país farto e fecundo, cujo povo possa pensar com a própria cabeça, usufruir dos frutos do seu próprio trabalho, construir suas próprias ferramentas (tecnologia), cultivar sua terra fértil e ensolarada e à noite, orar ou filosofar.

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 13h17
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A região das veias abertas

 

Para entender mais sobre a relação América Latina/países centrais não é necessário ser um especialista em economia internacional, nem dominar o complicado vocabulário das ciências sociais. O livro de Eduardo Galeano "As Veias Abertas da América Latina" cumpre exatamente esta função: a de introduzir o leitor no assunto, dispensando qualquer conhecimento especializado.

O livro é uma crônica da espoliação estrangeira na América Latina e, de maneira (quase) determinista, relaciona às mazelas dos povos latino-americanos à drenagem de riqueza aos países centrais, realizada como um acordo entre potências estrangeiras predatórias e oligarquias locais parasitárias. Conquanto seja suscetível à crítica esta visão reducionista do fenômeno, parece ser inquestionável a relação entre nossa pobreza e a riqueza alheia, ainda que neste cálculo outras variáveis devam ser computadas. É interessante lembrarmos que qualquer estadunidense pouco instruído é capaz de perceber e conhecedor do efeito pernicioso das oligarquias latino-americanas sobre seus povos. O problema deles é enxergar a outra metade da questão, isto é, a associação histórica (e mesmo a sustentação) entre essas oligarquias e os países desenvolvidos, sobretudo os EUA (poderíamos citar aqui, nos restringindo ao caso brasileiro, o apoio financeiro, administrativo e logístico fornecido pelos os EUA ao golpe militar de 1964, que derrubou o presidente trabalhista e nacionalista João Goulart).

A simplificação da mensagem e do texto, entretanto, não resultaram da falta de espírito crítico, mas sim da estratégia do autor que assim teve atendido o propósito militante da obra. Prova disto é o efeito produzido pelo livro, comentado pelo próprio Galeano em seu pós-fácio:

   "Este livro havia sido escrito para conversar com o pessoal: Um autor não especializado dirigia-se a um público não especializado, com a intenção de divulgar certos fatos que a história oficial, história contada pelos vencedores esconde ou mente.

   "A resposta mais estimulante não veio das páginas de algum suplemento literário de jornal, senão que de alguns episódios reais ocorridos na rua. Por exemplo: a moça que ia lendo o livro para sua companheira de assento e terminou pondo-se de pé e lendo em voz alta para todos os passageiros enquanto O ônibus atravessava as ruas de Bogotá; ou a mulher que fugiu de Santiago dó Chile, nos dias da matança, com o livro envolto nas fraldas do bebê; ou ainda o estudante que durante uma semana percorreu as livrarias da rua Corrientes de Buenos Aires e foi lendo de pedacinho em pedacinho, de livraria em livraria, porque não tinha dinheiro para comprá-lo.

    "Paralelamente, os comentários mais favoráveis que o livro recebeu, não provêm de nenhum crítico literário de prestígio, mas das ditaduras militares que o elogiaram proibindo-o. No meu país, (o Uruguai) por exemplo, As Veias Abertas da América Latina não pode circular, assim como no Chile e na Argentina. As autoridades o denunciaram, na televisão e nos jornais, como um instrumento de corrupção da juventude. 'Não deixam ver o que escrevo', dizia Blas de Otéro, 'porque escrevo o que vejo'.

 

  As veias abertas da América Latina (Ed. Paz e Terra), sucesso editorial do escritor uruguaio Eduardo Galeano. O livro, em formato digital, encontra-se disponível em compartilhadores de arquivos, como o emule (www.emule.com).

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 12h23
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Trecho do livro "As veias abertas da América Latina", de Galeano

 

   Há dois lados na divisão internacional do trabalho: um em que alguns países especializam-se em ganhar, e outro em que se especializaram em perder. Nossa comarca do mundo, que hoje chamamos de América Latina, foi precoce: especializou-se em perder desde os remotos tempos em que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta. Passaram os séculos, e a América Latina aperfeiçou suas funções. Este já não é o reino das maravilhas, onde a realidade derrotava a fábula e a imaginação era humilhada pelos troféus das conquistas, as jazidas de ouro e as montanhas de prata. Mas a região continua trabalhando como um serviçal. Continua existindo a serviço de necessidades alheias, como fonte e reserva de petróleo e ferro, cobre e carne, frutas e café, matérias-primas e alimentos, destinados aos países ricos  que ganham, consumindo-os, muito mais do que a América Latina e  ganha produzindo-os. São muito mais altos os impostos que cobram os compradores do que os preços que recebem os vendedores;(...) "Ouve-se falar de concessões feitas pela América Latina ao capital estrangeiro, mas não de concessões feitas pelos Estados Unidos ao capital de outros países... É que nós não fazemos concessões", advertia,  lá por 1913, o presidente norte-americano Woodrow Wilson. Ele estava certo: "Um país - dizia - é possuído e dominado pelo capital que nele se tenha investido." E tinha razão: Na caminhada, até perdemos o direito de chamarmo-nos americanos, ainda que os haitianos e os cubanos já aparecessem na História como povos novos, um século antes de os peregrinos do Mayflower se estabelecerem nas costas de Plymouth. Agora, a América é, para o mundo, nada mais do que os Estados Unidos: nós habitamos, no máximo, numa sub-América, numa América de segunda classe, de nebulosa identificação.

   É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou, mais tarde, norte-americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder. Tudo: a terra, seus frutos e suas profundezas, ricas em minerais, os homens e sua capacidade de trabalho e de consumo, os recursos naturais e os recursos humanos. O modo de produção e a estrutura de classes de cada lugar têm sido sucessivamente determinados, de fora, por sua incorporação à engrenagem universal do capitalismo. (...)

   “Para os que concebem a História como uma disputa, o atraso e a miséria da América Latina são o resultado de seu fracasso. Perdemos; outros ganharam. Mas acontece que aqueles que ganharam, ganharam graças ao que nós perdemos: a história do subdesenvolvimento da América Latina integra, como já se disse, a história do desenvolvimento  do capitalismo mundial. Nossa derrota esteve sempre implícita na vitória alheia, nossa riqueza gerou sempre a nossa pobreza para alimentar a prosperidade dos outros:  os impérios e seus agentes nativos. Na alquimia colonial e neo-colonial, o ouro se transforma em sucata e os alimentos se convertem em veneno. Potosí, Zacatecas e Ouro Preto caíram de ponta do cimo dos esplendores dos metais preciosos no fundo buraco dos filões vazios, e a ruína foi o destino do pampa chileno do salitre e da selva amazônica da borracha; o nordeste açucareiro do Brasil, as matas argentinas de quebrachos ou alguns povoados petrolíferos de Maracaibo têm dolorosas razões para crer na mortalidade das fortunas que a natureza outorga e o imperialismo usurpa. A chuva que irriga os centros do poder imperialista afoga os vastos subúrbios do sistema. Do mesmo modo, e simetricamente, o bem-estar de nossas classes dominantes - dominantes para dentro, dominadas de fora - é a maldição de nossas multidões, condenadas a uma vida de bestas de carga.” (págs. 13-4)

 


Escrito por Cláudio Gonzaga às 12h16
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